Thursday, March 15, 2007

Pega mal não falar bem

Houve um tempo em que eu até tentava inventar alguma mentirinha ou outra; concordava com alguma besteira ou endossava (contrariada) algum babaca só para não criar polemica. Você, leitor, que me conhece, sabe que grande parte disso eh mentira. Mas que eu tento, eu tento. Juro. Notei ao longo dessas 2,2 decadas de vida que se opor a certos assuntos eh comparável a assinar seu próprio atestado de óbito ou de ignorância. Tendo você argumentos plausíveis e sensatos ou não.

O Cirque du Soleil é uma unanimidade. Filas, preços e diversão são claramente supervalorizadas. Se um dia eu estiver fazendo arruaça na sua casa e você quiser me mandar embora sem ter que dizer com todas as letras, coloque o DVD dos caras. Deixarei sua casa antes mesmo de acabar a introdução. Não tenho um rol extenso de motivos, eu reconheço o talento dos artistas, mas simplesmente não me divirto, não vejo graça nenhuma. Acho maçante, o que mais preciso dizer pra provar que não gosto?

Também não consigo ter todo esse apreço por teatro. Não tenho paciência nem para ficar sentada 2 horas nonstop no cinema (e por isso opto por DVDs no aconchego do meu lar), quem dirá para ver “a arte do improviso” em teatros com cenários improvisados e com atores que improvisam. E eu lá quero saber de improviso? Pode ser azar, mas nunca assisti a uma peca que me desse outra impressão. Desculpem-me, mas não vou ficar me forçando a gostar. Mesmo que a alma do Paulo Autran (ai, perdão, ele ainda não morreu) venha me puxar o pé à noite.

Aaaaah, Trancoso... puta praia feia! Cheia de algas marinhas na beira-mar, gente feia e a estrada que leva até lá é esburacada e atola os veículos. O Nordeste brasileiro deixa a desejar em beleza e, mais ainda, em estrutura hoteleira e hídrica. Ou você vende sua alma ao diabo e paga uma suíte no Sofitel ou passa uma semana na pousadinha tosca em Caraívas a duras penas. Telefone, chuveiro que derruba mais de 2 gotas de água por vez, ar condicionado: tudo artigo de luxo! Sem falar nos mosquitos... Se deus que não existe quiser, eu não volto mais pra lá. Chamem-me de bairrista, mas prefiro ficar em São Paulo.

“Aaaaai, a bossa-nova, o Corcovado, o banquinho e o violão...” Não fosse o caos instaurado no Rio de Janeiro e a seriedade do assunto, eu desejaria um pouco mais de ação a cidade. Chega de pedir desculpas: eu não gosto de passar o dia feito farofeira na praia, sentindo calor, com areia nos fundilhos. Não gosto de cerveja morna, de rodinha de violão, de vendedor oferecendo até a mãe dentro de cesta, desse deslumbre com o Rio. Alias, de deslumbre com qualquer lugar que seja. Já ouviu falar de Venice Beach, Califórnia, né? Pois é, uma merda também!

E do David Lynch, do Caetano Veloso, da Fernanda Montenegro, da Clarice Lispector, do Tarantino, do João Gilberto, da Tarsila do Amaral, da Inglaterra (a Grã-Bretanha como um todo), do Jamie Oliver, da empiastra da Fernanda Young, do Fatboy Slim, do Zé Celso Martinez Correa, da Ivete Sangalo, do Homer Simpson, do Álvaro Pereira Jr., do Chet Baker, do Paulo Coelho e, principalmente, da Silvinha? NINGUEM VAI FALAR MAL?

Pseudo-hétero

A todos os heterossexuais presentes, inclui-se aí minha parceira SM, sinto informá-los: o mundo está virando gay. Se já não é de fato, faz questão de parecer.

Faço essa afirmação do fundo do meu coraçãozinho arco-íris. De um tempo pra cá, quase todo mundo descobriu que tem um amigo pederasta. De um tempo pra cá, muita gente descobriu que é pederasta. Nesse mesmo tempo, uma porção de garotinhas na idade pós revista Capricho se sentiu desamparada em uma mar de bichas desvairadas.

Nessa ótima confusão de gêneros que se instaurou, há uma coisa complicada. Como saber quem está em qual time? E por que jogar em dois times parece mais comum ainda? Se para mim, que sou do bafo, entendido e do meio, fica complicado, tenho pena de imaginar para você meu querido heterossexual.

Conheço, e você também, essa nova geração de meninos metrossexuais que lixam as unhas, fazem sobrancelha, entendem suuuper de moda, buscam inclusive o novo na arte ou na música e adoram rosa. Mas eles são é héteros. Dizem que são.

Minha situação ficou complicada. Me pego ali no shopping Iguatemi olhando para o gracinha que acaba de passar. Ele pára. Mostra o olhar tímido de quem começa a seduzir. Eu, como não nego fogo nem a poste, me prontifico a não deixar o rapaz na mão, literalmente. Eu sorrio e nós dois passamos por todos os estágios do flerte que qualquer livro de auto-ajuda descreve. Para completar, ele está de pólo lacoste rosa, boné Von Dutch, calça diesel e all star branco. Convenhamos, uma BI-CHO-NA! Talvez uma passiva louca que a qualquer momento pode proferir estar louca do seu edí.


Nota do autor: “edí” é o termo do dialeto gay para “cu”.

A namorada chega e dá um beijo digno de Casa Blanca nele. Eu, claro, perco 365 cores.

Na saída de um musical em cartaz na cidade de SP, eu, que faço parte da linha gay-cultural-musical, avisto um rapaz belíssimo. Ele traja uma camiseta gola V profundo, calça de corte impecável e tênis baixo pseudo-náutico. É dono de um cabelo irritantemente lindo engendrado nos melhores salões. Suas madeixas são propositalmente desarrumadas e combinam mais ainda com a milimetricamente perfeita barba “por fazer”. Em suma, ele pulou das páginas da L’Uomo Vogue. Antenadíssimo nas últimas tedências da moda européia.

Dessa vez ele não me enganou. Disse no mesmo momento a minha amiga: “esse aí, é hétero, olha a postura dele. O jeito de andar, o corpo másculo. Minha filha dá no meio”.
Ela, também perita da arte de desvendar bichas pela cidade, concorda já estufando o peito e encolhendo a barriga. Alguns segundos depois ele encontra seu amigo. A postura meu béim (para entrar no clima do desfecho) foi-se. Quando ele passou por nós, só faltou um par de asas para ser uma Angel da Victoria’s Secret.

A única solução que vejo é a instalação do interruptor que a Silvia propôs aí embaixo. Essa chavinha é para “hétero/gay/depende do estado alcoólico”. Tudo ficaria mais fácil. Afinal, ele usa sunga branca, desce na piscina do prédio para tomar sol sozinho numa tarde de quarta-feira, tem a comunidade “homens morenos” no orkut, só cumprimenta os amigo com beijos no rosto, tira fotos comprometedoras com “trutas” semi-nus e escorrega na hora de falar; mas ele é hétero. Diz que é. Ele pode não ser gay, mas faz questão de parecer.

E ia esquecendo, tatuagem de estrela compromete sim!

Monday, March 12, 2007

(011) 1406

Em minha opinião, seria importantíssimo que as pessoas tivessem seta, retrovisor, luz de freio e, principalmente, uma chave shift visível a toda a sociedade que nos indicasse DISPONIVEL OU INDISPONIVEL para outros seres. Os primeiros itens até poderiam ser opcionais, como vidro elétrico ou farol de milha; afinal, o máximo que nos pode acontecer é dar uma trombada, uma pisada no pé de outra pessoa ou ouvir algum impropério velado de algum pedestre por causa do pequeno acidente. Já a chave tem que ser obrigatória, igual encosto pra cabeça.

Você acordou atrasado, com torcicolo e – é claro – mal-humorado. Uma vez no saguão do seu trabalho, vê uma grande fila, apenas um elevador funcionando e aquele maleta das finanças com camisa laranja de viscose e sapato caramelo. Seu pescoço até destrava depois da guinada brusca de uns 150 graus na tentativa de desviar o olhar do sujeito. Em vão, claro. Ele te vê e não contente te pede para ajudá-lo com as dezenas de pastas que ele não consegue carregar.

Tal como um interruptor, desses de acender a luz, mesmo, a chave da tranqüilidade (vamos chamá-la assim por enquanto) indicaria se você está ou não disponível para ajudar; ou melhor, agüentar o Anderson, suas pastas, seu papo besta e seu hálito prejudicado ou não. Graças à chave virada para cima e uma discreta luz verde, o rapaz saberia que sua noite de sono (ou pelo menos na cama) foi gratificante e que seu estado de espírito lhe permite fazer companhia a você.
Caso estivesse acesa a luz vermelha, ou seja, a chave devidamente posicionada para baixo, nosso amigo lhe acenaria um tchau de longe (ou até quem sabe aquela balançada única com a cabeça que só os mais discretos fazem), lhe guardaria um lugar na fila do elevador e não esboçaria tentativa de comunicação com você ate o final do expediente. O contrario também é válido, vai que um dia o Anderson acorda rabugento depois de ter brigado com a Elaine da informática?

O mesmo principio é utilizado com criancinhas remelentas sempre presentes em jantares onde não são exatamente bem-vindas, com suas respectivas mães, que por falta de sensatez e por necessitarem de 10 curtos minutos de paz, oferecem seus pimpolhos a colos vazios como num leilão de jóias que passa nas madrugadas na televisão. Chave pra cima: ok, posso segurar seu filho por alguns instantes. Chave para baixo: não ouse aproximar este projeto de ser humano carente dos meus braços ou eu não respondo por meus atos. Tudo, é claro, sem verbalizações, mal-entendidos nem muito menos grosserias que às vezes nos vemos obrigados a cometer em busca de sossego.

Começaria utilizando a chave do sossego no modo vermelho todos os dias pela manha, pelo menos ao descer de elevador com outros moradores sonolentos e monossilábicos. Pense, você nunca mais iria ouvir “nossa, que tempo louco, não?”; “esse sindico não presta, o lixo do meu andar esta transbordando” ou ainda “você viu o que aconteceu com o filho do Medeiros, do 63? Chegou bêbado e raspou o carro na parede da garagem!”. Obra divina, não fosse a simplória tecnologia aplicada ao aparato. Uma simples e barata pilha AAA (aquela palito, do controle remoto) e sua paz de espírito esta garantida até segundo aviso.

Agora, naqueles dias em que acorda com o diabo no corpo, querendo beijar ate latrina de rodoviária, a chave também serve como radar. Você puxaria conversa apenas com as pessoas (ou quem sabe arvores, somos um blog moderno) cujas chaves estivessem com a luz verde acesa. E pronto. Se não chegar as vias de fato ou se descobrir que o alvo é mais chato que o Anderson aqui de cima, é só disfarçar e empurrar delicadamente a chavinha para baixo.

Alguém quer comprar a patente?

Thursday, March 08, 2007

Amanhã eu resolvo

Após muito tempo, renovo com esse simples texto a minha participação nesse blog. Como co-fundador eu devo linhas e linhas para restaurar minha imagem com você leitor. Devo ainda mais, recobrar a admiração literária de minha parceira (apenas profissional e fraterna) SM. Seguindo o conceito dessa confissão, estabeleceu-se meu tema. Postergar.

Nota do autor: Postergar não é o, no mínimo, excêntrico filme que marcou uma geração tão como o franzino corredor queniano que arrancou o sonho de milhares de brasileiros que corriam em canaviais de se tornarem campeões da São Silvestre.

O poder dessa palavrinha de fonética pobre e sem graça é maior do que podemos imaginar. Por que eu nunca voltei ao blog, se sempre houve idéias suficientes dentro da minha caixa craniana precisando ser escritas e lidas por alguém? Pelo mesmo motivo que você leitor está sem cartão de crédito há dois meses (repita: dois meses) e não liga para o gerente do banco porque está muito ocupado assistindo a reprise de Marissol. Postergamos. Todos. Sempre.

Veja você que sou um indivíduo de terrível sensibilidade ao calor, que mesmo no inverno mais gélido, liga o ar condicionado para não ter que tirar a jaqueta revestida de pele (falsa, pessoal do PETA, back off!). Pois então, esse mesmo comprador de peles falsas fez questão de comprar um carro com ar condicionado digital climatronic todo pomposo para poder regular exatamente a temperatura do seu veículo preto, que obviamente acumula mais calor.

Meu ar condicionado está quebrado desde o dia 09 de janeiro. Se você vive na mesma cidade que eu, ou talvez no mesmo planeta afligido pelo aquecimento global (lembrando que isso não tem graça nenhuma), pode imaginar (e sentir) o calor que venho sentindo nas últimas semanas. Por que este probleminha ainda não foi resolvido? Postergo.

Como último exemplo, os bons alunos do professor Álvaro sabem que em uma dissertação usa-se apenas três argumentos, quero dar-lhes mais uma pérola. Quando ganhamos um presente de alguém ele sempre vem anexado a um costumeiro cartão cheio de declarações sinceras, certo? (as pessoas podiam ser sinceras sempre, não só no aniversário. No natal, elas são hipócritas mesmo. No dia da mulher então nem se fala). Imagine esta lembrancinha vinda da única pessoa que você amou na vida. Esse foi meu caso, caro amigo.

Este presente foi recebido e esquecido em um desconhecido estabelecimento da metrópole paulistana no dia 03/02/07. Após dias de reclamações do preterido ex futuro amante, eu, que sou uma pessoa de atitude, fui buscar a sacola que continha o cartão ainda não lido. Ontem, dia 07/03/07.

Será que eu sou uma má pessoa? Você é uma má pessoa por esquecer o seu cartão? Por achar que pagar a conta com um dia de multa atrasada vale a pena, pois você estava ocupado colocando o sono em dia? Ou por talvez, comer arroz com shoyo para não ter de ir ao mercado? Afinal alimentação saudável é tendência.

O que me dói é que se fosse para sair com alguém ou ser gentil com um amigo você teria se desdobrado. Dar uma carona para o sujietinho semi-conhecido da faculdade, torna-se mais importante. Por que postergamos o fim da postergação? Talvez achemos que seja uma arte, a arte de evitar a fadiga (sábio carteiro). Por quê?

Love Will Tear Us Apart Again

ou a África do Sul é logo ali ou ainda baseado em fatos reais

Você sabe o que é timing. Ah, se sabe. Só que timing – eu que o diga – a gente não consegue sincronizar, assim, quando dá vontade. Infelizmente, é claro. Mas folgo em saber que isso não foi um lapso só meu (ou seu?). É culpa desse desencontro cronológico, do mero acaso ou das tais energias cósmicas nas quais eu faço questão de não acreditar.

O Ian Curtis perguntou naquela música se foi o timing dele que falhou e eu também não sei se foi o meu caso, na verdade. Ele deve ter dado cabo da própria vida sem nem saber a resposta. Claro que não se matou por causa da dúvida, até porque ele sempre foi desajustado e eu estou aqui bem vivinha com ela; mas que incomoda é inegável. Coloquei essa pergunta num stand by. Não quero ouvir falar por enquanto.

Não sei mesmo se fui eu a precipitada. Ou se foram todos aqueles discursos que eu ensaiava, a minha ansiedade ou toda aquela minha complacência com as nossas diferenças que chegaram a nos tornar tão parecidos hoje em dia.

Procurei a tal resposta por pura teimosia. O jogo já tinha desandado e não fazia pouco tempo, não. Igual o Ronaldão no meio da Copa de 94, lembra? Depois que o Mozar se machucou, o Parreira fez que fez, mandou o cara do Japão pros EUA e o deixou na reserva até o final dos jogos. Não precisava ter convocado, ele sabia que tinha o suficiente. Foi só pra provar que podia.

Se o Ronaldão tivesse ido antes, talvez pudesse fazer alguma diferença. Acontece que ele chegou atrasado, bem como a resposta que eu nem sei se recebi. Agora ela (a resposta) está aqui, sentada no banco das preteridas, com cara de coitada e eu sem saber o que fazer com ela. E sem nem ter um titular decente pra colocar em campo. Sem nem conseguir escrever um texto conexo.

Ao contrário do que já cheguei a cogitar, vai haver outras dessas convocações e outras Copas parecidas. Parecidas, pois se eu quisesse tudo idêntico, eu passaria o resto da minha vida te esperando. Só que o resto da minha vida eu não posso. Desculpem-me todos (você, inclusive, que não sabe de nada), mas eu não vou conseguir. Não viram o que já me aconteceu nesse tempo que passou? Não viram todo o otimismo e o resultado na Copa passada?

Chega de Chico Lang enchendo a bola do Corinthians, chega de dar esperança para os Flamengos da vida. Desisti de entender o Ian Curtis. Desisti do Ronaldão, de você e principalmente da Copa de 2010.


Nota da autora: espero compreensao e parcimonia nos comentarios. obrigada.

Nota da autora 2: a quem possa interessar, isso tudo ai de cima foi como usar fio dental depois de comer coxinha em festa infantil: extremamente necessario, libertador e estou muito bem. obrigada.

Monday, March 05, 2007

Inbetween Days

Robert Smith, o senhor (que mesmo já sendo um senhor, ainda pode ser encontrado pela noite londrina usando seu inesquecível batom vermelho) que me perdoe, mas vou ter que discordar de uma das suas mais notórias canções. E que ainda infestam os nicknames de messenger quando o fim-de-semana vem chegando. Ao contrario do senhor, eu prefiro quinta.

A sexta-feira é óbvia, é possível saber exatamente que tipo de gente encontrar em cada balada dessa cidade, inclusive velhos de peito peludo com a gravata afrouxada no pescoço que saiu chumbado da happy hour, acha que rejuvenesceu 15 anos depois das doses de whiskey e saem a esmo xavecando a primeira coitada que aparecer. Ou aquela famosa corja de biscatrancers e Nike shoxers tomando vodka com energético se preparando pra “day party PVT” que vai ter no sábado. Só sai de quinta quem tem pique pra segurar o tranco no trabalho na sexta ou não faz nada da vida como a autora destas linhas. Aposto que gente mais interessante.

Sábado é quase domingo, já tem um quê de tristeza. A quinta-feira vem toda promissora, com o jornal mais gostoso de ler dentre todos os dias da semana: tem o Professor Pasquale, meu muso inspirador; o Contardo tão brilhante, o Josimar Melo e a Nina Horta falando de comida. Fora os updates do Tutty Vasquez cheios de bom-humor. O quinto dia da semana, giovedi para os italianos é cheio de expectativa e se elas forem quebradas no dia seguinte, é tudo culpa dos dias subseqüentes, ela não tem nada a ver com isso.

O tal do dia antes da sexta é um dia legal de sair pra jantar e gastar um pouco a mais sem culpa. De comer aquele bolinho de arroz, de tomar um pilequinho sem encheção de saco ou peso na consciência. Experimenta fazer isso na segunda... Chegar de ressaca sexta de manha é menos condenável por parte do seu chefe ou mesmo da sua mãe se ela ainda não tiver desistido de você.

A quinta-feira funciona como uma luz no fim do túnel. Bem ou mal, já passou metade da semana e o que quer que tenha acontecido é amenizado com a promessa de vida no teu coração, digo, de um final de semana agradável. É o clímax da semana; com ou sem conotação sexual. É começar a pensar na roupa, eh ouvir musica animada, é ligar pra encontrar os amigos, é dar aquele sorrisinho quando não tem ninguém olhando só de pensar que é quinta.

Não bastasse o que já foi mencionado, a ultima quinta-feira ainda nos mandou de presente um mini discípulo seu, o Luca. Como não gostar dela?

Tuesday, February 27, 2007

Poupança Bamerindus

Com exceção de Elizabeth "Cleópatra" Taylor que ontem fez 75 anos e parece não ter medido esforços para sua autodestruição (drogas, gordura entupindo suas veias e no mínimo 3 maços de cigarro ao dia), o que se ouve cada vez mais por aí é que envelhecer é cool, que a maturidade é benéfica. Só se for para a agência funerária.

Podem me chamar de exagerada, mas com 22 anos sinto que o auge já passou e estou em pleno decline. Ou então que a ascensão foi demais e a bandalheira toda resultou em desnaturação irreversível. Juscelino prometeu 50 anos em 5. Os meus foram no mínimo 10 em 2. Impressionante.

Se há mesmo vantagens em envelhecer, eu ainda não as fui apresentada. A menos que comprar cerveja no supermercado sem nem mesmo solicitarem minha carteira de identidade seja considerada uma. Essa marca de expressão que ganha cada vez mais destaque em minha testa deve ser mesmo algo louvável.

Depois dos 20 anos você precisa de rumos, emprego, dinheiro, namorado, equilíbrio emocional. Do contrário é tratado como um James Dean contemporâneo (coisa que não acontecia quando tinha 17, por exemplo). Junto com as rugas, lei da gravidade agindo onde bem entende e hormônios pulando como se estivessem na Sapucaí. Emagrecer depois dos 30 é mais improvável que cruzar a mula sem cabeça na Marginal Pinheiros.

As pessoas já não se referem a mim como antigamente:

- Cuidado com a moça, filho!

- Moça? Eu não sou moca, sou menina, essa velha ta falando de mim? Alias, nem é tão velha, deve ter uns quarentinha. E desde quando quarenta nao é velha?

Fazer merda é cada vez mais condenável; vamos ficando mais racionais, não temos mais idade pra essas coisas de moleque.

Os anos 90 já são tratados como outra década qualquer (e não aquela em que você vive). Cheia de ícones da musica, cinema, política... cheia de mofo! Lembra do Nirvana, do Fred Krueger, do começo do Plano Real, do Impeachment do Collor? Agora coçamos a cabeça e lembramos da queda das Torres Gêmeas.

Como brinde pelos meus parcos 22 anos, caro leitor, eu ganhei um justificado e abusivo aumento de 70 reais na mensalidade da academia. Do jeito que as coisas vão, o aumento vai acabar sendo proporcional a minha idade. Que coisa boa, não é mesmo, Brasil?

Wednesday, February 14, 2007

As águas vão rolar

Mal acaba o Reveillon do Faustão e logo a nova mulata Globeleza - alguém percebeu que não é mais a Valéria Valenssa? - surge na tela da tv (no meio desse povo) em “trajes” cada vez menores.

Para os reles mortais é antecipação demais. Para os carnavalescos a coisa começa cedo. Eles precisam escolher qual nome de índia vão repetir no samba-enredo (Ceci, Tainá, Delzuite...), se colocam o Zumbi dos Palmares em cima do carro alegórico ou se reproduzem seu quilombo no chão, mesmo. Em qual ala vão homenagear o Santos Dumont e se o refrão vai ter “ô-ô-ô” ou “ê-ê-ê”. Segundo a análise combinatória feita previamente, ainda teremos mais uns dois ou três carnavais sem que eles precisem apelar pra outros ícones da “folia”.

Aliás, existe termo mais infame do que “folião”? Existe: “brincar” o carnaval. Como se durante os 4 dias virasse todo mundo retardado, decidisse pular feito um chimpanzé epilético e lotasse a 25 de março em busca de fantasias grotescas a troco de nada. Como se brotasse alegria no coração das pessoas e álcool e lança-perfume não tivessem nada a ver com isso.

O povo desce a serra bebendo Kaiser quente e fazendo batuque na lataria do Escort dourado com pára-choque caindo. Criancinhas desvairadas passam os 4 dias manchando a pintura do carro alheio com espumas enlatadas sob os olhos dos pais coniventes (ou bêbados demais pra impedirem). Joga-se confete a esmo pelas ruas como se eles fossem espontaneamente pra lata de lixo depois. Sem contar no cheiro de urina que infesta os arredores da lambança.

Domingo à noite os mais velhos já não seguram o tranco, até que o vizinho bêbado invade a casa lá pelas 23hs, com a lata colada na palma da mão e nem repara que ninguém riu quando ele disse que queria ver a Mangueira entrar (pensando bem, tem um pouquinho de graça, vai!). Depois chega em casa e vai dormir no sofá com o cachorro já que a esposa sensível cansou de ter enjôo por causa do seu hálito alcoólico.

Sem contar aquela outra estirpe, que passa o ano atendendo telefone pra ganhar uma miséria e depois gastar tudo em Salvador – aquela do carnaval democrático em que quem não pode pagar mil reais pra usar uma camiseta horrenda é separado por uma corda e leva cotovelada e sopapo dos seguranças amistosos. O ministro da Cultura, em cima do trio, vestido como se fosse o Nelson Mandela em 1950 cantando “vou enfiar minha língua no céu da sua boca”. Lindo de se ver...

Eu, no entanto, vou passar os 4 dias pulando na piscina, desfilando de carro na avenida vazia de SP e levantando o dedinho pra pedir mais um chopp. Encontrem-me porém, na 4ª. Feira de cinzas, com os olhos atentos na apuração dos votos. O Jamelão não empacota esse ano, mas com certeza vai brigar com o Neguinho da Beija-Flor outra vez.


Monday, February 12, 2007

"O mení, por favor?"

Para quem ainda não sabe, sou formada em Gastronomia, o que no bom português significa que sou cozinheira. Pense o que quiser. Para quem nunca me viu de corpo inteiro, aviso também que adoro comer, mas ao contrario do que a maioria pensa, eu não sou um pé no saco na hora das refeições. Não vou à casa dos outros e saio reclamando do ponto de cozimento da massa nem do tempero do feijão.

Uma vez, inclusive, no aniversario de um querido amigo, sua mãe veio me pedir desculpas porque “estava servindo só aqueles crepes simplezinhos”. Mal sabia ela que eu estava me acotovelando com os outros convidados pela próxima panquequinha: capricha no camarão, hein, colega!

Por outro lado eu não consigo entender certos tipos de pessoas. A começar pelas que pedem o filet bem passado. Não estou pedindo pra ninguém comer seu bife com o boi ainda mugindo, mas quem quer comer carne dura, é melhor que peça logo um lombo de calango do agreste, não é mesmo?

E strogonnof? Sinceramente, não me entra na cabeça como alguém pode julgar esse seu prato preferido! Primeiro que não existe mais uma receita especifica para o grude... Cada um frita a carne que quer, joga qualquer coisa vermelha com consistência de molho e usa o nome russo achando que ta fazendo bonito. Ketchup, creme de leite de caixinha, molho inglês fajuto, arroz empapado, batata palha murcha e a desgraça esta feita. Champignon? Ah, vai sem!

Tem também o drama do molho rose, que serve para cobrir salada de churrasco, servir com rosbife ressecado comprado na rotisserie do bairro, para o spaghetti Adria e já vi gente misturando alho frito e ovinhos de codorna com o supracitado. Suspeito que seja por causa da cor, fulano acha que salmon (??!!) é chique. Antes da espécie do peixe, falar salmon com a boquinha fechada como quem finge falar francês. Haja Ketchup do Senninha na cesta básica, né, pessoal?

Acho o malfadado frango de padaria muito mais interessante, por exemplo. Quebra um galho, vem bem temperadinho e acompanha quase qualquer coisa. Quando vou à churrascaria, sofro serias represálias a começar pelo meu baixo interesse por carnes bovinas. Gosto do buffet de salada, das friturinhas que eles levam na mesa, de FRANGO e principalmente da torta holandesa daquele carrinho que todo mundo tromba quando levanta pra se servir.

Restaurante por quilo é outro antro de gente com mau-gosto. Com toda aquela oferta de alimentos, fulaninho acaba esquecendo que se paga pelo peso final do prato e sai garfando tudo o que vê pela frente. Parte culpa do cliente, parte do cozinheiro: camarão com catupiry (ninguém vê o crustáceo mas finge estar uma delicia); sushi (alguém acredita que uma maçaroca de arroz Camil enrolada em alface crespa possa se assemelhar ao típico japonês?); bife acebolado (pessoal volta atrasado do almoço por causa dele, 30 minutos so pra conseguir mastigar); salada de maionese (com aquela temperatura amena como as areias de Nairobi fica difícil acreditar em bem-estar estomacal depois de mandar aquilo pra dentro).

No final das contas, eu acho que gosto pra comida se discute, sim senhor!

Wednesday, February 07, 2007

Hoje eu acordei com vontade de sofrer

O descontrole emocional não é exclusividade feminina, apesar de a TPM armar uma verdadeira fuzarca nos hormônios da mulherada. A mágoa induzida, por assim dizer, é como os brasileiros da seleção canarinho: com ela não há quem possa. Digo induzida porque não é preciso uma razão aparente pra querer morrer de catapora, muito pelo contrário. Às vezes acordamos assim, com vontade de sofrer, só pra dar uma variada na rotina de gargalhada.

Alugar filme da Meryl Streep é um bom começo, recomendo As Pontes de Madison. Ou então derrubar um vidro de requeijão no chão quando está atrasado pro trabalho – isso aborrece mesmo. Ler Pablo Neruda, passar em frente de favela em dia de chuva, reler e-mail do ex depois do toco, ouvir no surprises do Radiohead (ou lover, you should’ve come over, eu insisto no Jeff Buckley). Qual a necessidade de fazer isso, meu Brasil?

Comece a se preocupar, porém, quando essa mágoa durar mais de 2 dias. A depressão de que falo é passageira e até um pouco fictícia. Eh aquela vontade de cortar os punhos... com faquinha de rocambole Pullman. *Nota da autora: caso o quadro se estenda, vale procurar o psicoterapeuta de confiança!

O motivo, ao contrário do que muitos pensam, não é obrigatoriamente afetivo. Claro, os preteridos, mal-resolvidos etc. devem sofrer do mal com uma freqüência um pouco maior, mas também não vá descontar essa chateação esporádica nos seus fracassos amorosos. Dê-se o direito de passar no Select e comprar junk food superfaturada mesmo tendo que deitar na cama pra conseguir fechar o zíper da calça depois. Mesmo sem saber o porquê.

Falando em calca, aproveite pra colocar aquela sua de moletom azul marinho desbotado, com elástico no tornozelo, afunde a cara no travesseiro, soluce de tanto chorar. Chore assistindo um capitulo de Malhação. Ou melhor, assista Malhação. Lembra da mãe desalmada que jogou a criancinha na Lagoa da Pampulha? Quer motivo melhor pra ficar magoado?

Reveja suas fotos do colegial ou o vídeo do seu aniversario de 7 anos, dê um abraço forte no seu cachorro ou lembre que seu carro esta sem gasolina e que você não tem um puto de um real pra encher o tanque. Ligue pro amigo mais próximo balbuciando palavras sem muito sentido. Ele com certeza já passou por isso. Quando você for ver, quem terá passado será a própria magoa induzida. Só não pense que é pra sempre.

Thursday, January 18, 2007

Quando é assim... PIMBA!

Pode ser que o amor não o seja. Mas falar de amor, sem duvida é. Nem Fernando Pessoa, nem Sinatra. Sequer Pablo Neruda. Ninguém escapa do ridículo que é falar de amor

Ninguém trata – com o realismo necessário – da decepção e da frustração que é não ser correspondido, da insegurança que faz os olhos arderem de ciúmes (olha lá, estou sucumbindo!!), do chute na boca do estômago que é ser trocado por outrem de uma hora pra outra. Só falam do lado bom do amor, mais ou menos como a Globo fez com o Collor em 1990.

Pouca gente pára pra pensar no quanto é imbecil ficar pensando na roupa que vai usar com uma semana de antecedência, ou mudar inconscientemente o discurso de acordo com o alvo escolhido. Na dura tarefa de apresentar o dito cujo para a família e amigos. Sem contar aquela época em que ninguém sabe se é namoro ou não, mas mesmo assim tem-se que ouvir a pergunta de pessoas inconvenientes.

“Que seja eterno enquanto dure”, “um grande laço”, “fogo que arde sem se ver”, “o calor que aquece a alma”... Eu realmente não concebo que um cidadão escreva uma coisa parecida depois de ter passado pelo menos 3 dias pensando incessantemente em alguém. Não é legal, não é saudável, não pode ser normal.

Tive um professor de Literatura que mesmo misturando a história d’Os Lusíadas com a do famoso assassino Chico Picadinho, declarou sabiamente em uma de suas aulas que quando se começa a achar bonitinho que o outro coma de boca aberta ou que pare de usar o plural das palavras é que a coisa não vai bem.

Fica todo mundo com cara de Regina Duarte com o pescoço quebradinho pro lado e a mão direita no peito fazendo “awwwwn” pra cada respiro do individuo ao lado. Perde-se o senso critico, os critérios pré-estabelecidos, as noções de civilidade, as convicções e, em alguns casos, os amigos!

Ficamos aqui, ouvindo Jeff Buckley fingindo que queremos chorar pra dar mais autenticidade ao sofrimento achando bonitinha a falta de tato com a língua-mãe e tentando encontrar razões plausíveis pra isso. Ou então jurando pra deus e o mundo que já superamos o fracasso, que a bendita da fila andou. Mas a gente sabe que às vezes a fila demora pra andar – e não sabemos nem se a gente quer que a fila ande!

O defunto nem esfriou e já vêm uma meia dúzia querendo arranjar outro par pro recém-preterido. Como se fosse crime hediondo ficar sozinho e não querer passar por isso de novo. Como se a vida de todo habitante deste planeta tivesse, obrigatoriamente, que ter como trilha sonora alguma musica romântica do Chico Buarque.

Vai por mim, o amor é como uma garrafa de gim:
http://magnetic-fields.letras.terra.com.br/letras/537995

Wednesday, December 20, 2006

Manual simplificado do Reveillon

ou "o espirito de Baz Luhrmann nao me abandona"

Este é o Duplas Crônicas desejando a você, caro visitante e/ou amigo, um Reveillon cheio de bebida boa e gente agradável.

Nada de "tomar banho" de Sidra Cereser sabor pêssego em Long Beach, ou agüentar vizinho endividado reclamando da vida. Nada de botar fogo em bombril pra simular os fogos de artifício. Também não desejo que ninguém do meu círculo de convivência passe a virada na Av. Paulista (ok, gente, eu sei que ano passado teve Banda Calypspo, mas né!!).

Não invente de fazer bate-volta em Santos, provavelmente você passará a meia noite descendo a serra. Por favor: tem sempre um maleta que encasqueta que precisa comer lentilha e que não come peru porque o cazzo do bicho "sisca para trás". Não seja uma destas pessoas. Coma o que seu estômago agüentar, mas não se esqueça que O CHAMPAGNA tem gás e as deliciosas bolhinhas da bebida também ocuparão lugar no seu estômago. Não vale ter piriri no meio da fanfarra e pedir sonrisal pro dono da festa.

Tente se manter com todas as peças de roupa com as quais foi à festa (exceto pelo sapato). No dia seguinte vai todo mundo evitar o assunto, mas a bunda branca de uns e outros ficará para sempre na memória. Deixe o celular em casa. Depois da quinta taça de champagne... Bem, você sabe o que acontece depois.

Siga ou não todas essas recomendações, BUT TRUST ME ON ONE THING: todos aqueles que alegam odiar no reveillon o fazem, na verdade, porque nunca passaram uma virada de ano digna de memória. A sorte está lançada.

Cheers, baby, see you next year com mais causos.

Ah, pra quem ainda pula ondas: peçam para que meu companheirinho volte a escrever. Receio que ele tenha sido abduzido por ovnis ou, pior, esteja entalado no hatch da ilha de Lost...

Monday, December 04, 2006

O novo dia do novo tempo que começou

Pelamãedoguarda, como passou rápido!

Esta deve ser a 6ª. vez consecutiva que você olha para o calendário e se dá conta que dezembro já chegou. E dezembro não é como setembro ou maio. Dezembro é o último mês do ano, o que soa desesperador para o nosso amigo aqui de baixo que queria emagrecer e agora começa a ganhar torrone nas cestas de Natal, para a descontrolada que havia prometido economizar para passar a virada de ano num lugar diferente da praia no centro de Bertioga e para qualquer outro mortal habitante deste planeta.

Uma considerável corja tem o discurso pronto sobre como eles odeiam o Natal, o quanto é uma festa capitalista criada pelos Papas pedófilos do passado. Relembram as brigas de família ao redor da mesa da ceia, do tio bêbado que fica falando e fazendo obscenidades com a “patroa” antes da troca dos presentes e de como a carne do peru da prima da sua mãe fica com gosto de isopor. Sem contar os mais radicais, que bradam por ai que “não tem porque comemorar o nascimento daquele Nazareno bastardo”. Existem ate os que gostam de toda a comoção, mas ileso ninguém fica.

Você já passou pela árvore na frente do lago do Ibirapuera e certamente se impressionou com a cafonice da mesma, já tentou ir ao cinema do shopping e desistiu depois de 40 minutos procurando uma vaga no estacionamento. Sua mãe já começou a passar horas no telefone com suas tias, tios e avós para decidir onde vai ser a fuzarca este ano e quem levará o que para a ceia e o almoço. No final é sempre peru, farofa e torta mousse de chocolate.


Sua companheira de trabalho continua se perguntando se deve ou não comprar presente para o novo namorado. Só estão namorando há 3 semanas, sabe como é. No fim das contas ela vai ganhar um cartão Hallmark amassado do Garfield. Ele, uma camisa e um cinto caramelo da Mr. Kitsch. As casas Bahia, a Marabraz, as operadoras de telefonia celular e fixa: estão todos tentando te convencer a comprar presente até pro vizinho do prédio que segura o elevador bem quando você está atrasado . A tal compaixão Natalina que não convence a ninguém.

Aposto que algum amigo seu, desavisado, enviou por email o bendito vídeo do wear sunscreen, você, aposto, se emocionou de novo e acha que vai conseguir tomar isso como uma lição da vida. Criancinhas felizes e banguelas se amontoam sobre o Papai Noel nos comerciais da TV (por que insistem em colocá-las para cantar?!).

Você tinha exatos 50% de chance de adivinhar o que ganharia no amigo secreto: um perfume do Boticário ou um DVD da Ana Carolina com o Seu Jorge. Segunda opção. Há, por isso, quem prefira a Páscoa, “com chocolate não tem quem erre”. Agora é rezar pra sua prima balzaca solteirona não localizar o tal presente antes da ceia ou a dupla vai gritar impiedosamente no seu ouvido noite adentro.


Ah! Sinta-se aliviado: esse ano você não ouviu o (a) cantor (a) Simone cantando a famigerada canção de John Lennon "então é Nataaaaaal, e ano novo tambéééém...". Vestida de branco, descabelada e berrando daquela forma, suspeito que Simone seja uma alma penada hermafrodita. Medo.


Tente não abrir o botão da calça depois do almoço na casa da vó e tente não dormir enquanto seu tio assiste as reprises dos gols do Garrincha na Copa de 70. Tente não caracterizar como diferente o presente daquela tia de quem você sempre esquece o nome. Mas confie em mim quando eu digo que ano que vem será tudo igual.

Monday, November 27, 2006

Boicote

Passada rápida que o fim-de-semana deixou rastros e uma infecção no meu olho, fiquei me sentindo o próprio Jatobá na novela América, só que minha poodle aos 12 anos de idade não tem cacife pra bancar o cão guia Quartz – mas isso é assunto pra outro dia. O breve encontro com este blog tem um motivo especifico: a minha incomensurável repulsa a nova campanha da Rainha.

Se não me falha a excelente memória, nunca comprei nenhum tênis desta marca e com a veiculação desses novos “reclames” na televisão, a previsão é mesmo de que isso nunca venha a acontecer. Tem aquele filme da mulher vestida de Rainha tirando sarro da pobre coitada que corria no parque dizendo que ela vai ficar gorda. Esse até que é simpático.

A ojeriza surge mesmo quando aquele sujeito medonho invade a tela da minha tv oferecendo tênis para os clientes. Pra começar que a figura dele é completamente anti-comercial: aquele figurino dele é comparável ao de um vendedor de loja picareta do Largo 13. A barba por fazer NÃO FICA CHARMOSA naquela porpeta humana. Não tem beleza nem charme nem carisma que salvem. Ele é mesmo feio e ponto final.

O trocadilho infame é realmente infame e contra fatos não há argumentos: alguém riu quando o empiastro ofereceu os tênis com sistema NUKI e AIKOM pros clientes? Eu não e espero que você leitor também não tenha feito essa besteira. O produto (que já não me aprece ser bom) não é devidamente valorizado. Alguém entendeu como funciona o ajuste de pisada de acordo com cada pessoa ou mesmo pretende adquirir um par deles? Eu quero um tênis que já venha ajustado, pelo amor de Cristo!

Trocando em miúdos, boicote aos tênis Rainha. O corpo é meu e eu esculhambo o quanto eu quiser.

Tuesday, November 21, 2006

Quando a água bate na bunda

Nessa altura do ano, quem nunca se desesperou para emagrecer ou entalou na porta ou nasceu magro e não liga para essas futilidades. Balofo que é balofo já cometeu desatinos em busca de uns quilos a menos e raros são os casos de sucesso. Não querendo ser pessimista, evidente, até porque ontem mesmo eu recomecei a dieta a sério.

No começo é tudo uma delicia, até mesmo ir ao supermercado fazer as compras light. Alface, rucula, almeirão, rabanete e semente de linhaça que você nunca pos na boca mas esta disposto a começar a comer em nome da saúde. Sim, você pensa,
não é só a estética, eu quero ver meus netos, quero ter mais disposição.

Passando reto pelo gorgonzola, picanha maturada e pelo pacote de Sonho de Valsa, enche o carrinho de Maxi Goiabinhas Bauducco – só 90 calorias, comemora. A maior tentação mesmo é não pedir o pack de Marlboro normal que antigamente eram tragados em menos de uma semana.

Na academia, a salvação: agora vai! Quem sabe você não acaba um viciado em maratonas, não é mesmo? Compra tênis novo com amortecimento até no cadarço, camiseta de dri-fit falsificada e os 30 minutos na esteira parecem o caminho de Santiago de Compostela (agora sabemos por que Paulo Coelho cometeu o desatino de escrever O Diário de um Mago). Depois eu acostumo, ilude-se.

Com o apetite aberto pelo exercício, a vontade é de pedir um x-tudo ali mesmo na lanchonete da academia, mas os olhares de reprovação seriam fatais. Você, então, volta pra casa pra atacar suas guloseimas permitidas. Damasco seco, iogurte desnatado, as benditas goiabinhas e, quem diria, gelatina (zero calorias!).

Após tentar deglutir a metade do mamão papaia no café-da-manha, você se espanta com o “sanduíche”: uma fatia de pão integral e outras duas de queijo minas. Essas ultimas facilmente confundidas com uma folha sulfite. Na quinta xícara de café preto e mais ligado que luz de freio no rush da 23 de Maio, vem o ronco do estomago e o conformismo: daqui a pouco tem lanchinho.

Faltando mais de uma hora para o supracitado, você não consegue mais se concentrar em coisa alguma. Tudo vira comida. A borracha Faber-Castell, inclusive, corre sérios riscos ali dando sopa. Hum, uma sopinha de capeletti... A maçã não serve nem pra engambelar o hipotálamo, mas você segue em frente.

Almoço, jantar, folhas, um fio de azeite e o peito de frango mais ressecado que o cabelo do Walderrama... CHEGA! Chega um momento em que você quer bombardear a Turquia por ser a fornecedora dos damascos, desaparecer com os iogurtes da geladeira e sair pelas ruas arremessando Maxi Goiabinha feito Papai Noel em favela.

Rucula? Acelga? Podem me dar isso para comer quando eu começar a trotar ou usar uma ferradura. Alem do mais, eu não tenho 4 anos pra ficar comendo gelatina feito um babaca! Eu, correndo igual um hipopótamo naquela esteira? Nunca mais!

A mudança de vida não durou nem duas semanas (ainda mais sem os fieis escudeiros nicotina e alcatrão). Não vai ser dessa vez que a calça vai fechar com tranqüilidade ou que você vai desfilar esbelto pela praia. Em contrapartida, domingo tem churrasco e estão avisando da portaria que a meia mussa/meia calabresa já chegou. Quer coisa melhor?

Tuesday, November 14, 2006

Momento de reflexão

Eu queria ser boazinha, priorizar as qualidades e não os defeitos das pessoas, não ter uma língua viperina nem reclamar o quanto eu reclamo. Queria mesmo.

Os erros de português das pessoas não me incomodariam mais nem as barbeiragens dos motoristas tresloucados das ruas dessa cidade. Eu não teria chiliques demorados ao tentar encontrar uma musica decente nas rádios e como não iria encontrar, suspiraria conformada em passar mais 3 minutos ouvindo Charlie Brown Jr ou um reggae picareta qualquer.

Eu não ligaria para balada intransitável nem para loser com xaveco furado, teria sempre um sorriso no rosto mesmo com o calor derretendo minha maquiagem. Crianças ensandecidas fazendo fuzarca em shopping receberiam um afago sincero vindo de Silvia Maria.

Eu não ligaria pras grandes bobagens esotéricas que o povo fala nem pros fritos de rave gritando “good vibes”, iria inclusive retribuir as energias positivas (sabe-se lá como). Deixaria de fazer piada com a desgraça alheia e repensaria antes de fazer comentários sarcásticos.

Gostaria muito de ser daquelas pessoas que acham que “esta tudo bom”, “qualquer coisa serve” ou “vai esse mesmo”. Mas gente: Quem não chora, não mama, cantavam nossos antepassados nas matines de carnaval. Pensem bem!

Então, depois do êxito em todas essas tarefas, eu conseguiria emprego na Copag no cargo de Dois de Paus e você não teria mais este blog para ler.

Wednesday, November 01, 2006

O Brasil é mesmo lindo!

Vi outro dia na TV que um pai de família estava economizando até no absorvente de sua senhora para conseguir bancar as férias da prole em Maceió. Feliz da vida, mostrava as passagens e o folder do hotel – que, com certeza não vai ser 1/3 do que prometia no impresso distribuído pela CVC Turismo. Voltarão todos achando que foi a viagem dos sonhos.

Desconfiando ser um pouso de emergência não-declarado, os quatro desembarcam perto de uma casinha com telhado de sapê e estrutura de madeira maciça e quase têm um piripaque por causa do calor. Quarenta e dois graus sob sol escaldante os fazem repensar se não era melhor ter esperado dentro do avião. Por incrível que pareça, a tal casinha é o aeroporto, que passou a contar com esteiras rolantes para as malas há cerca de 3 meses. Moderno.

Seguindo a bandeirola da guia turística, Nelson, Mariângela, Nelsinho (10) e Caíque (7) seguem para o ônibus (sem ar condicionado) com destino ao aclamado hotel. O caminho tortuoso e de terra batida provoca tosse em metade do circular, mas a esperança de uma semana de sossego nas praias paradisíacas os faz esquecer do incomodo.
“Ué... no papelzinho mostrava o mar azul, benzinho, por que será que ele está marrom hoje?”. “Deve ser a maré, querida, já, já passa”.

O check-in do quarto é feito manualmente e demora longos 40 minutos. Duas camas de casal com varanda de frente para o mar. Um sonho, não fosse a colônia de pernilongos instalada perto da porta do banheiro, as castanhas de caju e a lata de coca-cola a módicos R$8,00 cada que o marido desavisado pegou do frigobar.

Andando até a praia, a família avista um ou dois sapos pelo caminho. Foram avisados que perto do anoitecer é comum eles aparecerem. Tão comum que Nelsinho, com sua sunga verde tamanho M Adulto apesar da pouca idade, vem trazendo o simpático anuro nas mãos, para desespero de sua mãe. A areia grossa e escura logo é coberta por algas amarronzadas, tal como o mar “límpido” da capital alagoana. Entreolham-se todos e ninguém têm coragem de mergulhar.

A piscina, apesar de menor do que o esperado, se mostra a grande salvadora da acalorada família, que larga chinelos e cangas na primeira cadeira vazia e se arremessa na água fosca de tanto cloro. Constatam que a temperatura dentro e fora da piscina é a mesma. Fora dela pelo menos têm a certeza de não estarem nadando em urina alheia. Caíque, com a bóia lhe apertando os braços, corre para o chuveiro. Pena que a fila promete uns 10 minutos de espera.

Mariângela, já no quarto, percebe que esqueceu os itens de banheiro em São Paulo e começa o racionamento de shampoo e “creme rinse” cedidos pelo hotel. Nelson resolveu aliviar seu intestino antes de todos, a privada acabou entupida e a manutenção chega para resolver o problema exatamente na hora do banho da matriarca, que tentava desembaraçar as madeixas tingidas com esforço e sem condicionador.

Já vermelhos do sol, os meninos chegam ao restaurante para jantar estupefatos com o enorme buffet. O mais novo se encantou com acarajé apesar de não estarem na Bahia e o quitute regado a dendê foi tudo o que o menino comeu. O resto da família optou por alimentos leves, dado o calor subsaariano. Nelson se refrescava com sua habitual cervejinha.

Bendito seja o ar condicionado – que só funciona no máximo ou no mínimo, forçando a família a pedir cobertores e deixar o aparelho funcionando em temperatura polar para conseguirem dormir. Antes disso, porém, a mãe deixou bem claro: escovar os dentes com água mineral (
daquele frigobar). Apesar de exótica a coloração amarelada, ela não deve indicar coisa boa. Já na cama, os pimpolhos se chutam sem parar disputando espaço na cama.

Ajudada pela quantidade industrial de acarajé que o caçula ingeriu, a briga fraterna resultou em vomito. Ambos choravam, um de enjôo e o outro de nojo. A mãe aflita enfiou os dois na banheira e ligou 3 vezes na recepção para que trocassem os lençóis enquanto o marido, chumbado, roncava na cama em trajes mínimos, para desgosto da pobre camareira. Além de limpar vomito a meia-noite, ainda é obrigada a ver um verdadeiro leão marinho de ceroulas.

Ao final dos sete dias, o mar não clareou, a água da piscina não refrescou e os sapos coaxavam cada vez mais alto. Os pernilongos não deram trégua nem com repelente radioativo e a conta de frigobar beira o inacreditável. Nelsinho pegou micose em suas protuberâncias adiposas, Nelson-pai não parou de beber nem seu filho mais novo de vomitar. Mariângela arrumou as malas cuidadosamente e voltou para a megalópole dizendo que se divertiu como nunca.

Thursday, October 26, 2006

A vida como ela é

Arrisco-me a dizer que o 17º é o ano mais longo da vida de um individuo. Aquela necessidade de se livrar da adolescência e suas complicações e aquela ansiedade de fazer logo os dezoito anos e acabar com essa palhaçada de ser chamado de aborrecente.

Todo mundo pensou que a vida acadêmica seria uma mamata, que ninguém encheria mais o seu saco para estudar e que as notas não seriam problema. Ate o bar da faculdade começar a encher cada vez mais cedo, o professor de filosofia mandar os alunos lerem Kant e a primeira DP for descoberta.

Aos 17, as táticas para falsificação do RG para entrar na balada variavam entre a mais tosca e a invejada por estelionatários. Ninguém pode ser barrado em porta de balada por não ser maior de idade, é muito constrangimento. O coitado finge que tem 18 anos e o segurança finge que acredita.

O quesito carro é, sem duvidas, o mais influente na hora de rezar pra apagar as 18 velas o mais rápido possível. Não tem coisa mais desagradável do que pedir carona pra mãe de amigo ou para aquele pobre coitado que já tem carteira de motorista e por conta disso se vê obrigado a buscar e levar todo mundo para todas as regiões da cidade (sem reclamar, afinal, ele já passou por isso). Para evitar dar mais trabalho, junta-se os que moram mais próximos e um acaba dormindo na casa do outro. Se acenderam um fosforo no quarto, ele entra em combustao num piscar de olhos.

Chega o grande dia e o Peugeot 206 com o laço vermelho não esta na garagem da sua casa. Por culpa da famosa Lei de Murphy, na primeira oportunidade de mostrar seu rg original, ninguém pede para vê-lo e você repete no Exame Pratico da auto-escola. A essa altura mais um ou dois amigos já ganharam alvará dos pais para usar o carro da família e arranjar carona nem é mais um aborrecimento tão grande.

Vem chegando a conclusão de que na faculdade também é preciso estudar e que logo, logo vai ser preciso arrumar um emprego. Finalmente com a CNH em mãos, os novos maiores de idade disputam quase no tapa para ver quem vai de carro e, com medo de perdê-la, o motorista não ingere uma gota de álcool sequer. Cada um dorme na sua casa, afinal, estão motorizados, não tem cabimento não deixar o outro em casa.

Mas e a graça de brigar pelo colchão melhor na casa do amigo? De comemorar dentro da balada a pseudo ingenuidade do segurança ou de chegar em casa feliz da vida com a garrafa de vodka que conseguiu comprar na padaria sem a carteira de identidade? Das aventuras (luaus, inclusive) e medos que uma cambada de adolescente viviam, num verdadeiro comboio arruaceiro?

Foi tudo embora no seu aniversario de 18 anos e você nem tinha se dado conta.

Tuesday, October 17, 2006

Eu só corro de ladrão

Dizem por aí – provavelmente a sua avó – que tudo na vida é uma questão de habito e eu, pra variar, vou ter que discordar. A gente se habitua ao que é bom, ao que nos faz felizes e não a andar de ônibus, por exemplo. Anda de ônibus quem precisa e o mesmo me parece ser com exercícios.

A atividade física salvou a vida do obeso quase moribundo, do velho com problema cardíaco, do Thunderbird que na época estava mais pra aspirador do que pra VJ e do Bolinha da 3ª. Série do primário que só queria saber de comer risole de quatro queijos na lanchonete da escola. Hoje esse pessoal deixou de ser sedentário e dá declarações tal qual um dependente químico sob controle. Em suma, encontraram a luz no fim do túnel (bem comprido, de preferência, que é pra queimar mais calorias).

Tem toda a historia da endorfina que o cerebro libera, dos resultados no corpo, da disposição recuperada
(quem nunca subiu uma ladeira pra chegar numa balada e precisou esperar uns 2 minutinhos pra não entrar ofegante?) e, há quem diga, do vício. Sim, vício em corrida! Eu não tive essa sorte.

Não me habituo nem me vicio em nada que me elimine calorias. Eu sou viciada em vasculhar profiles do Orkut, em jogar Freecell, em comer pão de queijo, Ferrero Rocher e Trakinas. Isso ninguém vangloria. Eu até tento, vou à bendita academia quase que religiosamente com o intuito de me viciar qualquer dia mas isso ainda esta longe de acontecer. Reclamo na musculação, ao subir a escada pra sala das esteiras e dos filmes chatos que passam no horário em que estou lá. Já tentei tênis, natação, hidroginástica, squash, body pump, body combat, step, mat pilates, body balance e nada pareceu dar certo. Em breve iniciarei uma nova modalidade:
body rolling (down the street).

Ou eu que sou muito chata ou as pessoas são persuadidas muito facilmente. Fizeram um evento lá mesmo na academia com o seguinte chamariz: CORRIDA DE 12 KM E DEPOIS SHOW DO BARAO VERMELHO. Todo mundo comprando a camiseta, com sorriso de quem tinha ganhado na loteria... Eu seria capaz de correr o triplo disso para NÃO ASSISTIR UM SHOW DO BARAO VERMELHO! É mentira, é claro, mas não tinha uma outra recompensa? Um Celta usado já estava de bom tamanho.

A Nike, no ano passado, também começou com apelos.
“Estou correndo porque..”. Porque tenho pernas. Se não tivesse, rastejaria. Tenha dó, né, pessoal! Este ano a campanha está mais agressiva, fui a um barzinho daqueles já mencionados aqui e encontrei no espelho do banheiro um adesivo muito do grosseiro. “Não adianta nada arrumar o cabelo se o corpo não esta em forma. Nike Corre 10K”. Tomei mais uma pra esquecer, acordei de ressaca e o máximo que consegui fazer foi me escorar até a gaveta de remédios pra dor de cabeça.

Trocando em miúdos, o que a Nike proporciona aos pobres coitados é uma manhã de suadeira consentida com a desculpa da superação de limites e liberação de endorfina... Eu quero a minha endorfina em dinheiro, alguém pode extraí-la via intravenosa? Não contentes, os participantes ainda bebem aquele suco aguado chamado Gatorade, confraternizam-se numa “balada” ao fim do evento e na segunda-feira 70% chega no trabalho por conta das doses cavalares de Dorflex.

Vovó costuma dizer também que aqui se faz, aqui se paga. Meus exames de rotina, pelo menos, ainda não começaram a se manifestar, a desgraça esta acumulada na barriga, ancas e braços (pra ser otimista!). Já diria o glorioso Chico Buarque (viciado em futebol com os amigos, ninguém é perfeito):
Mesmo com toda a fama / com toda a brahma / com toda a cama / com toda a lama / A gente vai levando / a gente vai levando / a gente vai levando / A gente vai levando essa chama.

Sunday, October 01, 2006

O papelao

Eu não sou dada a grandes demonstrações de afetividade, interação com o publico desconhecido, improvisos e espontaneidade desde... desde sempre. Aos três anos, na minha festinha de aniversario a senhora minha mãe me pediu para dar uma risadinha para a foto, do alto do colo de palhaços simpáticos. Visivelmente desconfortável, a mini Silvia Maria esticou o lábio com o dedo indicador, simulou um sorriso e gerou olhares incrédulos da platéia que cantava parabéns.

Foi assim durante anos, passava muda pelos lugares com medo de ser abordada por uma tia de amiguinha mais afetuosa, um transeunte pedindo as horas ou a professora querendo saber o resultado da equação de primeiro grau. Timidez e insegurança o leitor já deve ter diagnosticado, mas hoje estou curada da mudez voluntária, decidi mudar de tática: falo para evitar silêncios sepulcrais.

Antes, porem, dessa transição decisiva em minha vida, passei por um vexame em família. Pouca gente fala no assunto (ainda bem) com medo que eu reaja da mesma maneira. Minha querida avo fazia 70 anos naquele 5 de outubro e organizamos uma festa surpresa na sala do meu modesto apartamento. Não era só um bolinho pra não passar em branco, não. Com copeiras, frutos do mar, queijo brie e vinho branco, a festa exigiu colaboração e paciência da família inteira alem de causar um certo rombo financeiro. Veio gente da Penha, Araraquara, penetras, crianças, diabéticos e alguns que eu duvidava ate que estivessem vivos.

Acontece, caro leitor, que apesar de tentar fingir, eu tenho traços de mimo em minha personalidade de caçula. No dia seguinte ao grande evento, partiria para a famigerada cidade de Porto Seguro, era minha viagem de formatura, pela qual eu estive esperando alguns longos anos e ninguém parecia se importar com isso. Ninguém foi me levar no cabeleireiro, fui comprar Havaianas e Sundown 45 sozinha e também sozinha arrumei minha mala. Não é nada, não é nada... mas foi a primeira vez que isso me aconteceu e eu não estava gostando.

Ainda não sei dizer como foi possível acomodar tanta gente dentro desta casa. Minha avo, muito espirituosa, chorou com a surpresa, o jantar corria dentro do previsto a não ser pelo “animador” que minha mãe contratou sem avisar ninguém. Típico dela, mas ninguém desconfiou, muito menos eu que detesto ocorrências inesperadas. Adentro a sala um sujeito vestido nos moldes do cantor Falcão dizendo que era amante da minha avo (o que não teve tanta graça já que meu avo havia morrido um ano antes) e outras gracinhas que pareciam animar a platéia da 4ª. Idade.

Como me é de habito, fiquei escondida atrás da multidão temendo qualquer tipo de abordagem por parte do comediante de araque. Não preciso nem dizer que foi em vão e no final das contas o homem me puxou pela mão, chamando todas as mulheres da família sabe-Deus pra que. Desvencilhei-me das mãos dele e agradeci o convite mas a massa estava enlouquecida e me empurravam para o centro da sala.

Alem da exposição, me contrariaram e nem deram bola pro meu nervosismo pré-viagem. Some ali algumas tacinhas de vinho e... Silvia Maria teve, vamos dizer, um colapso nervoso, gritou com o cidadão e com quem mais lhe dissesse pra participar da brincadeira e como se não bastasse, começou a chorar compulsivamente. Tudo devidamente registrado em vídeo, pela insolente cunhada que me persegui ate a cozinha enquanto eu soluçava e tentava falar alguma palavra coerente.

Uma meia dúzia de pessoas tentou me acalmar em vão e como a coisa não parecia melhorar em nada, minhas duas amigas presentes tiveram que me tirar do local. Agora era eu, chorando de nervoso, vergonha (chame do que quiser) no hall do meu prédio. O cover do Falcão encerrou sua performance, recebeu seu cheque, foi me pedir desculpas e eu CONTINUAVA CHORANDO, agora com medo de levar bronca da minha mãe.

Passei pela sala escoltada pela mesma (compreensiva, graças a Deus) e fui direto pro meu quarto, onde recebia os quitutes e o suco de maracujá trazidos pela minha prima, que se solidarizou com a minha causa e me ajudou a fechar a mala. Não me perguntem sobre o vídeo, eu não sei do paradeiro dele.

O momento traumático foi uma suplica: não me façam surpresas, não me levem a mostras de arte interativas, a espetáculos do naipe “de la guarda”, não contratem falastrões para “animar” o meu aniversario. NÃO ME SURPREENDAM ou eu posso ter um chilique.