Tuesday, June 16, 2009

Novo Endereço

Bem, amigos, depois de quase três anos de reclamações, desabafos e outros assuntos aleatórios, o Duplas Crônicas chega ao fim. Como havia pouco tempo para a outra parte da dupla se dedicar às crônicas do jeito que o blog merece, eu, Silvinha, decidi continuar em carreira solo. Ao contrário de fim de banda, a amizade continua.

Obrigada aos nossos (nem tão) fiéis leitores durante esse tempo todo!

A quem interessar possa, "estarei atendendo" em novo endereço:


Assinem os feeds, repassem pros amigos!

Pela atenção, obrigada!

Friday, May 29, 2009

Pão, Pão. Queijo, Queijo

Fim-de-semana na espreita e termômetros em baixa bastam para que os convites para fondue comecem a aparecer. Três graus a menos e tomar uma mísera cerveja gelada com batata frita vira um ato criminoso. Precisa ser vinho com “fundí” e, pelo que vejo, faz muito sucesso. Eu sou contra.

Há uns bons anos, meus pais resolveram levar os três filhos pra comer fondue no restaurante. A expectativa era grande, todo mundo arrumadinho. Depois de muita demora, o garçom veio trazendo a carne, os molhos e o rechaud (richô, NÃO, por favor!).

Meu irmão, com o estômago colado na costas, não teve dúvidas: espetou a carne crua, besuntou de molho e enfiou na boca antes que minha mãe pudesse fazer qualquer coisa.  Eu esperei ela explicar todo o procedimento e concluí “o garçom é um folgado! A gente é que vai ter que ficar cozinhando?”.

O fondue de queijo é mais popular. Precisa de concentração tibetana para espetar o pão sem deixá-lo esfarelar, lembrar da cor do seu garfinho, saber qual é a sua taça de vinho, não deixar o pão cair dentro da panela, manobrar seu garfinho sem atingir a mão de ninguém, não deixar o pão ensopado pingar na sua roupa e não queimar a boca enquanto tenta falar de amenidades debruçado numa mesa com outros sete famintos.

No fim das contas, ninguém conversa durante o jantar. O esforço é tanto, que você já tirou todos os casacos, o vinho já subiu pra cabeça e mesmo bêbado e com calor, você continua com a sensação de que não comeu nada. Quando menos se espera, já abriram a sexta garrafa de vinho e nem se respeita mais a taça de ninguém.

Eis que chega a outra panelinha, cheia de chocolate fumegando, os morangos picados, banana e uva. Tentador. Dona Mamãe, nas poucas vezes em que fez fondue em casa, cortou também quadradinhos de bolo de chocolate. Quem sabe, sabe...

O que eu sei é que o morango, a banana e a uva escorregam no chocolate feito criança em tobogã do Wet’n Wild. Fica tudo no fundo da panela, queimando e grudando. A cena final é a sala do apartamento cheia de pau d’água sujo de vinho e chocolate, bem como a dona da casa, que ainda tem que lavar a louça e a panela queimada. Joga água em tudo e reza pra situação ter melhorado no dia seguinte. 

“Fazer fondue” a dois é uma bela de uma desculpa esfarrapada. Tão eufemístico quanto dizer pro pai que vai a um “churrasco” de faculdade. Com a diferença de que só no primeiro caso vai haver comida (com trocadilho). 

Tuesday, May 19, 2009

Neurose feminina é redundância

Então você conhece o cara e passada a fase do sms, chega a hora do MSN. Quem adiciona quem? Endereço de e-mail tosco tipo bru_ni_nho_sp10@hotmail.com ou fabiomalucao@msn.com perde ponto? Perde. Muitos. Aí você vai lá e adiciona. Mulher de atitude, fibra, dá o primeiro passo. 

Lá está ele, Fábio, offline. Como assim, offline? Segunda-feira, 9:20 da manhã, como é que o cara ta offline? Não trabalha, não? Já sei! Me bloqueou, certeza. E toca entrar no blockstatus.com pra verificar. Hum, ok. Ta offline, mesmo. Mas e se o site não for de confiança? Vai tomar um café, fumar um cigarro que a coisa tá tensa.

Sobe a janelinha do Fábio, você hiperventila. Pára tudo o que está fazendo pra inspecionar os dados do rapaz. Eu não vou falar é nada, já adicionei ele ontem, não tomo mais atitude. Passam-se cinco minutos e nenhum dos dois toma atitude. De acordo com o iTunes habilitado, ele já ouviu umas cinco músicas de que você gosta e o cursor continua intacto. Aparece David Bowie na playlist dele e você não se contêm. É agora. Vou falar que adoro Space Oddity!

O chefe chama. O dedo escorrega desligando o monitor e você finge que presta atenção. Vai anotando palavras sem nexo e enquanto o homem monologa e você faz que sim com a cabeça, a tela do MSN não sai da sua mente. E se ele sair? E se for almoçar? E se ele esquecer que eu sou eu e me deletar e bloquear? O blockstatus não é confiável, eu nem chegarei a ter certeza. Acaba a reunião com o chefe e você corre de volta. 

Ó lá: ferrou, ele tá ausente. Mas será que está ausente mesmo ou só colocou pra ninguém incomodar?  Será que colocou pra EU não incomodar? Bom, mas se bem que agora é 12:30, ele deve ter ido almoçar, se eu mandar mensagem agora, ele não vai responder. Vou ficar ‘ausente’ um pouco, pra não parecer tão viciada. 

Já sei! Ele não deve ter me visto online, vou entrar e sair pra ver se percebe. Na terceira vez que repete o procedimento, sente-se ridícula pois ele deve ter desabilitado os avisos. Ou isso ou ele acha que meus serviços de internet não são lá muito satisfatórios. 

Quatro e quarenta da tarde. Me parece um bom horário, meio da tarde, bem casual.  Casual até é, mas e se ele me achar uma desocupada que não trabalha e fica atazanando os outros? Vou esperar um pouquinho. Às dezoito e vinte e três, você decide que vai puxar assunto. Ó lá. Saiu! Saiu do MSN, o que que eu vou fazer agora?
 

Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais terá sido mera coincidência. 

Wednesday, April 15, 2009

Os Delírios de Consumo de Amélie Poulain

Os e-mails de corrente que vinham com listas das pequenas coisas que fazem a vida valer a pena sempre mencionavam, além do gostoso cheirinho do café "passado" na hora e da Amélie Poulain enfiando a mão no saco de cereais,  a delícia de se achar dinheiro em bolso de roupas. Não sei se sou muito limpa ou muito pobre, mas isso raramente acontece comigo. Principalmente porque agora ninguém mais tem dinheiro, é o bendito do Redeshop, do Visaelectron. Ao invés de moeda de 10 centavos, encontro comprovante do cartão.

Começo a juntar os papeizinhos jurando que vou fazer as contas, ser uma pessoa comedida. Devo poupar dinheiro. R$14,56 no Pão de Açúcar. Cerveja. R$68,00. Brechó. R$89,00. Shoestock. R$73,00. JF Bar. JF Bar? Rua Augusta? Ah, lembrei. R$7,80. Padaria Iolanda. Onde é Padaria Iolanda? Quem é Iolanda? R$37,61. Pão de Açúcar. Cerveja. 

No domingo à noite formo uma bola de bocha feita com os tickets e desisto de fazer as contas. O que os olhos não vêem... Ultimamente, alegando uma irrisória consciência ecológica, tenho rejeitado a segunda via do comprovante, já aviso antes. Eu vou amassar e encontrar uma semana depois, mesmo.

Aquele trocadinho do bolso que ajudava o amigo a inteirar uma gelada no posto de conveniência deu lugar...ao cartão do banco. Camarada tem a cara de pau de passar R$2,80 no cartão e a lojinha paga mais de taxa do que o valor do produto em si. A gente fica mal-acostumado e depois vai até em barraca na praia perguntar se aceitam crédito. O pior é que tem algumas que aceitam. Acho que me viro melhor sem um dos rins do que sem meu Redeshop.

Vira e mexe a rede sai do ar e não posso nem dizer que vou lavar pratos no restaurante porque eles usam uma máquina muito mais eficiente  do que eu. Suo frio até o tal do sistema voltar. O que me faz feliz mesmo é ouvir o apitinho da máquina e a calorosa mensagem: TRANSAÇÃO APROVADA. Ah, as pequenas coisas da vida! 

Sunday, April 05, 2009

Narciso Vernizzi

Daí o cara reclama do vizinho do prédio, que sempre que encontra com alguém no elevador faz questão de comentar sobre o tempo. São Paulo é assim mesmo: as quatro estações do ano num dia só, tem que levar blusa de frio e guarda-chuva pra sair de casa. Impressionante. Se não isso, o cara vai falar o que? Que precisa trocar o óleo do carro ou que o filho está deixando as fraldas?

Puxar papo é uma arte para poucos. Eu mesma sou uma que prefiro ficar calada na frente de desconhecidos a me sujeitar a um vexame desses, mas não é sempre que se tem essa sorte. Sala de espera de pronto-socorro, a velha que devia ser habitué no São Luis, tinha mais nada pra fazer na sexta à noite, se mandou pra lá. Já tinha lido todas as Caras e Quens da semana, achou melhor sondar sobre as enfermidades dos companheiros de sala.

Fulano com gastrite nervosa e a velha especulando: ah, isso aí é briga com a namorada. Homem fica guardando tudo, acaba assim. Olhei pra senhorinha com ares de descrença naquilo tudo que ela dizia e mesmo assim ela começou a contar de seu problema com diverticulite. Se não dava pra ficar quieta, não era melhor falar do tempo?

Na depilação, a mesma coisa. Depois de falar do Big Brother e de algum crime bárbaro da capa da Veja, a mulher não se compadece de sua situação. Quer dizer, não basta você sofrer a cada puxão impiedoso de cêra. Além de sentir dor, é preciso ficar interagindo. Foi pra praia? Ta queimada! Nossa, mas seu biquíni é grande, hein? Olha essa marca... Ela pode estar acostumada, mas não é do meu cotidiano o contato tão íntimo de outrem com a minha virilha, muito menos comentando o caso da Isabela Nardoni.

Deixando o melhor pro final: taxistas. Ah, os taxistas! Sempre com posições políticas amenas e centradas. Não tem jeito, tem que matar todo mundo; Maluf roubou mas construiu a Av. Espraiada. Não se contentam em ouvir meu destino, ligar na Alfa FM e dirigir, precisam interagir com o passageiro.

Um caso verídico é de um motorista que quis fazer sucesso com os jovens que entraram em seu táxi e pôs-se a contar sobre o dia em que saiu do quarto para buscar água no meio da noite e encontrou seu filho enrabando uma cabrita na sala!! Não sei bem o que ele esperava ouvir como resposta. Consta que o silêncio imperou no carro até o fim da viagem.

Antes tivesse falado do tempo maluco. 

Tuesday, March 31, 2009

O Amor nos Tempos de Vegetarianismo

Dizem que podemos encontrar nossa alma-gêmea, cara-metade ou qualquer outro nome de banda de pagode que sirva para definir o amor verdadeiro (a metade da laranja como diz o Fábio Sênior) em qualquer lugar.

Eu encontrei a minha num restaurante por quilo da rua Augusta. Vegetariano, devo dizer. Simples e arrumadinho, a comida gostosa, clima tranquilo e fui eu com a minha bandeja me servir. Olhei para frente e lá estava ele. 

Cenoura, alface, grão de bico, ricota, espinafre e spaghetti integral ao funghi. Ele parou a fila no spaghetti ao funghi e não se constrangeu em encher seu prato. Ele já tinha se tornado a minha alma-gêmea antes mesmo de se servir. Cabelo bonito, calça jeans, blazer de veludo marrom (e eu nem gosto de marrom!). Ele nem precisava ter colocado gelo no copo e alcançado uma lata de coca light no fundo da geladeira. Mas ele alcançou. 

A cada 'obrigado' que ele dizia aos funcionários eu tinha mais certeza. Era ele. Sábia canção do Fábio! Por coinciência sentamos em mesas diferentes, virados um de frente pro outro. Eu olhava sem graça, desviava o olhar como quem não quer dar bandeira. Na minha cabeça, quase formava a imagem do vestido de noiva, da cor do sofá da nossa casa, da raça do cachorro que compraríamos.

E entre esses olhares, essas imagens, veio o ponto alto. Empunhando garfo e faca ele, o amor da minha vida, fatiou o spaghetti com requintes de crueldade. Frio e calculista, como o Coronel Mostarda na sala de música com o Candelabro. E o grande amor que encontrei no restaurante foi pro vinagre. 

Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais terá sido mera coincidência. 

Tuesday, March 17, 2009

Desencapetamento celular

Na impossibilidade de existir um famigerado Capitão Nascimento em cada esquina desse país, o medo entre os brasileiros vem crescendo em progressão aritmética (sabendo Deus apenas como se calcula isso).

Uns têm medo do BOPE e do Caveirão, outros do traficante, dos maconheiros discípulos de Bob Marley que podem invariavelmente ter um súbito de violência e agredir velhos na rua em busca de um pastel de feira no domingo de manhã.

Ainda deve haver gente com medo dos comunistas vermelhos comedores de criancinhas, da tríade Fidel-Hugo-Evo e, é claro, do Bush. Os tementes do poder do Satanás e todas as complicações que ele pode vir a causar estão lotando os templos sagrados administrados por Edir Macedo e adjacências.

Paúra, em italiano, aquele verdadeiro cagaço de ir buscar um copo d’água no escuro no meio da madrugada também existe. Medo desses Paulos Autran que esqueceram de morrer, de gente morta. Eu mesma tenho medo de célula morta.

Elas morrem todos os dias, aos montes, como uma faxina étnica. Um verdadeiro Holocausto silencioso. Para me prevenir, adquiri cremes esfoliantes de todas as sortes, cheiros e preços. Vou esfregando aquilo pelo corpo todo, até me confundo. Lembro da música que aprendi no Maternal: cabeça, ombro, joelho e pé. Joelho e pé. 

Ao final do processo, não sei se me livrei das células mortas ou se arranquei minha derme. Vale tudo na hora de exorcizar os demônios. 

Tuesday, January 27, 2009

Philips - Sense AND Simplicity

Manu,

Você, melhor até do que eu, sabe que às vezes escrever é o melhor jeito de falar. Mesmo para mim, que frequentemente te condeno com a minha incontinência verbal. Você, nas poucas vezes que falou ao invés de ouvir, com essa fé que te faz otimista demais, dispensou a ajuda do Rei e profetizou “vai dar tudo bem”. Desde a primeira queda do controle remoto.

Você estava lá desde o comecinho, quando eu ainda nem tinha pretensão de roubar o quarto com banheiro e TV do meu irmão. Quando era só o computador. Aliás, nem sei se sabe, mas a história começou errada. O controle da TV já não estava muito bom das pernas (ou dos botões) quando eu cheguei, mas pensei que não fosse nada de mais.

Antes mesmo de saber da primeira queda, você me alertou. Mas, pimba! O negócio deu um duplo twist carpado à La Daiane dos Santos e foi um pedaço pra cada lado. Remontei tudo rapidinho pra ninguém perceber. Porém, logo notei que tinha que fazer cada vez mais força pra apertar os botões. Achei que não tinha problema, afinal, usava mais o controle da TV a cabo.

Parecia uma coisa sobrenatural: era sempre o pobre controle da TV que se espatifava no chão de madeira. Você falou mais de uma vez pra eu tomar cuidado, resmungou “não é possível, Silvinha” e até ameaçou “Silvinha, é a última vez que eu vou falar pra você aposentar esse controle”. E eu, nada. Como é que eu ia viver sem controle remoto, meu deus?

Dava pra fazer muita coisa, você até sugeriu. Comprar outro, inclusive. mas era tudo muito difícil pra mim. Apesar de tentar fazer parecer que não, você entendia o que se passava comigo toda vez que o controle se estraçalhava. Às vezes a culpa era inteiramente minha (ou será que foram todas?).

Aos poucos fui tomando bem mais cuidado e deixando ele de lado, guardado na gaveta do criado-mudo e de vez em quando até programava o timer na própria TV pra não colocá-lo em perigo. A idéia de submeter o controle aos perigos desse mundo era muito tentadora.

E assim foi até que de uma hora pra outra, levaram a TV e o controle embora. Pra praia, bem longe. Até ajudei a carregar a TV, enrolei o controle antigo num papel bolha que achei por aqui. Depois eu chiliquei, claro. E você me acalmou dizendo que eu ia sobreviver, que ia dar tudo bem.

No começo foi complicado. Não ligava mais na VHI pra ver Clips Pra Acordar todo dia de manhã antes de sair da cama, nem adormecia assistindo os Simpsons de madrugada. Às vezes capotava no sofá da sala. Hoje, conforme você ensinou, estou começando a entender que, uma vez acostumada com a TV e com o controle no quarto, você nunca mais desacostuma. Não adianta tentar ir contra.

Eu fui levando (mesmo com toda a Brahma, a chama, lama). A gente vai levando. E agora estou no Submarino procurando uma TV nova pra comprar. Não quero nem de plasma, não preciso. Mas o controle vai ter que estar zero quilômetro e eu vou ter mais cuidado com o pobrezinho. Você sabe das coisas, Manu!

Obs: eu sei que esse controle deve quebrar como o outro, que um raio pode queimar a TV na primeira semana, que pode dar tudo errado outra vez. Mas eu tenho provas de que realmente “dá tudo bem” no final. 

Wednesday, December 17, 2008

Galeão-Cumbica

O caos aéreo que estragou o passeio (e os negócios) de muita gente no ano passado, na verdade começou há muito tempo, quando resolveram dar a paternidade da aviação ao brasileiro Santos Dumont. Pra não culpar o pobre homem que nem está mais aqui pra se defender, retifico: o caos aéreo começou quando o primeiro vôo saiu destas terras carregando dezenas de descendentes de Peri.

Qualquer cidadão que já tenha passado pela experiência de entrar num vôo (doméstico ou internacional) conseguiu perceber os arroubos de ansiedade e falta de educação nos outros passageiros. Tradução: brasileiro fazendo arruaça. Com pouca vivência desses casos no exterior, continuo afirmando que o problema é mesmo a nacionalidade. Somo aí o novo-riquismo, que se espalha a cada segundo, e a desgraça está feita.

O povo na sala de embarque reclama com a companhia aérea pois não podem aguardar na área vip. "Só para a primeira classe". Entre os pães de queijo superfaturados e crianças sentadas no chão, o que se ouve é um murmurinho sobre a demora. Nada muito complicado de se entender se considerarmos que se trata de um avião, não de um ônibus que passa rápida e sorrateiramente pelo ponto nas ruas.

Por este mesmo motivo, não seria necessário se acotovelar com os passantes e empurrar os funcionários para pegar o primeiro lugar da fila antes mesmo de ouvirem o final do anúncio do vôo vindo da famosa voz anasalada. Mas não. As pessoas agem como se o avião fosse engatar uma primeira marcha e sumir pelos ares com a velocidade de um beija-flor.

Parecem também ignorar o fato de que OS LUGARES SÃO MARCADOS assim que é feito o check-in. Se não estivessem tentando engambelar a funcionária quanto ao excesso de peso das milhares malinhas CVC, teriam prestado atenção nisso, e a uma hora dessas estariam ainda sentados, esperando que o portão de embarque fosse realmente aberto para, então, embarcarem. 

A fila no melhor estilo último dia de apostas na MegaSena acumulada não teria razão para existir, mas a algazarra está feita. Os funcionários vão tentando pôr ordem no galinheiro. A família que tentou despachar as duzentas malas ainda empurra mais uma no carrinho, ignorando a determinação BAGAGEM DE MÃO. 

O bagageiro do avião, obviamente, não é preparado para acomodar uma mala do tamanho de um filhote de rinoceronte, mas o cidadão insiste em contrariar aqueeeeela lei da física e continua esmurrando a sacola pra ver se faz caber. É preciso intervenção da comissária, que manda o homem sentar e enfia a mala embaixo da poltona com dificuldade.

Concordo que é bem entediante ficar ouvindo as recomendações dos procedimentos e acho inclusive, que se precisar chegar no extremo da queda  automática de máscaras de oxigênio, vai todo mundo mandar o procedimento às favas. Salve-se quem puder! No entanto, ficar conversando em altíssimos decibéis enquanto a mocinha de cabelo emplastado de gel fala não é exatamente o que podemos chamar de cortesia. 

Os bancos precisam, sim, estar a 90 graus e não existe razão pela qual a mesinha deva estar abaixada nos primeiros minutos após o embarque. Lá do fundo dá pra ouvir a fulana papeando no celular e a aeromoça (digo, comissária) tentando abordar o adolescente "rebelde" que insiste um continuar com o fone do ipod nos ouvidos, em volume suficiente para estourar seus tímpanos antes da decolagem. 

Eu não sei dizer, mas se é solicitado que o cinto seja afivelado e que assim se mantenha até que o sinal esteja apagado, deve haver um motivo. Levando em conta que manter o cinto afivelado durante 20 minutos não pode ser comparado com empalamento ou algum método de tortura oriundo da Ditadura Militar, não me parece pedir muito que isso seja feito. 

Sei de gente cuja fantasia sexual envolve banheiro de avião, mas à balzaquiana que escolheu encarar Guarulhos-Miami num terninho azul turquesa e calçando salto alto ficou faltando mesmo quem a fizesse companhia. A fulana não sossega na poltrona e vai raspando a busanfa nos outros para conseguir passagem. À parte a inquetação sobre o cardápio, o gelo na coca-cola e o tiozão que resolve pedir vinho numa ponte-aérea que dura 45 minutos, o vôo segue tranquilamente. 

O comandante anuncia a preparação para pouso e agradece a escolha dos passageiros (dependendo do caso, reza um Pai Nosso). A comissária repete toda a via crucis em busca do desavisado que insiste em tentar usar o blackberry.

Mal o avião pára na pista (hoje em dia não basta mais estar em terra), pede-se pro povo se manter sentado, mas já dá pra ouvir o plé-pléc da massa enlouquecida soltando o cinto mesmo com o maldito do aviso aceso! Instantes depois, como numa missa, todo mundo levanta ao mesmo tempo tentando pegar as coisas no bagageiro e vai se formando outra fila de INSS no corredor. Acho que é medo de irem parar no "Aeroporto Terminal Princesa Isabel", vai saber...


Thursday, September 04, 2008

Usucapião

Sou do tempo da locadora de bairro. Saudosa Vídeo Brasil, um sobradinho meio escuro que apertava as fitas VHS nas prateleiras lá pelo início da década passada. Não tão saudosa é a memória de uma das últimas vezes em que estive lá, aos 5 anos de idade, e quase fui seqüestrada, mas isso fica para um outro dia.

Substitutas foram aparecendo ao longo do tempo, cada vez mais perto de casa, mas sempre com a camaradagem do funcionário, que fazia sugestões e vez ou outra até livrava os atrasados da multa na devolução da fita. A seção para 'adultos' ficava separada por uma sugestiva porta de Saloon e era divertido analisar que tipo de adulto entrava lá (geralmente um gordinho com camiseta verde-musgo, chinelo e pouco cabelo).

Alguns anos se passaram e em menos de dois meses de obra foi erguida a Blockbuster do bairro. "As lojas são pré-fabricadas em dry-wall", justificou minha mãe. Bexiga, pirulito, revistinha, Nintendo 64 à disposição pras criancinhas treinarem as novas táticas. Acabou aquela história de esperar devolverem o filme. Na época do lançamento, havia tantas cópias de Seven disponíveis, que se juntassem todas poderiam fazer páreo ao Muro de Berlin. Pacote de 2kg de Ruffles, Pipoca Extra Manteiga Temperada no combo com 8 litros de Coca-Cola por apenas 89,90 e você ainda ganha uma caneca do Titanic!

Confesso que a coisa ficou um pouco impessoal. Não bastava mais dizer que eu era a filha da minha mãe para alugar um filme. Agora tinha que mostrar a carteirinha, confirmar o telefone e, claro, pagar antecipadamente. Os pré-adolescentes contavam as moedas na fila na esperança de sobrar um troquinho pro pacotinho pífio e superfaturado de M&Ms, já que o Confete havia perdido a vez.

Outra década se passou e frente à TV a cabo, Pay-Per-View, afins e o valor bem salgado do aluguel, o reinado da Blockbuster já mostrava uma perna meio manca. O pirulito e a bexiga, porém, continuavam lá. Foi quando desatenta, fui em busca de um DVD, estacionei o carro e notei que a loja tinha sido diminuída quase pela metade e agora era vizinha de uma vistosa Drogasil.

Peraí, isso aqui não é Locadora! A Blockbuster fora invadida pelas Lojas Americanas! Cafeteira, forninho, telefone celular, sutiãs e calcinhas cor de pele caindo dos cabides, um chute no triciclo infantil, aparelhos de dvd AKON, barris de acrílico cuspindo bombons Serenata de Amor.

Uma leve esbarrada com o quadril na caixa de boneca com feição de Sex Shop, travesseiros de pena em promoção e pratos Duralex marrons. Quase junto com o suposto pote de ouro que se encontra no fim do arco-íris e baixando um pouco a cabeça pra não enfiar a testa no ovo de páscoa pendurado no teto, é possível avistar os dvds para aluguel.

A maioria são, obviamente, os blockbusters do cinema, como sempre. Mas ao contrário do que era antes, tentar encontrar qualquer filme lançado há mais de cinco anos é mais improvável do que ir pagar as compras na saída e a caixa não ter bigode.

Usucapiram a Blockbuster. É culpa do MST? Quem eu chamo, o INCRA? Não sei se xingo o José Rainha ou critico a má distribuição dos latifúndios. Será a vingança dos brasileiros contra o domínio do império americano sobre nossas locadoras no passado?

Fato é que, tal como a megacorporação ianque, as Americanas Express estão mudando os hábitos por aqui. "Nunca na história deste país" se viu tanta gente andando pela rua segurando latas de pringles genéricas e pacotes de meias esportivas. No mais, daqui a pouco a Globo reprisa Senhor dos Anéis dublado no Super Cine.

Tuesday, July 22, 2008

Perigo Constante

Sou a primeira a falar "é mulher" quando alguma calamidade acontece no trânsito dessa ou de qualquer outra cidade. Em Estocolmo, onde ocorre um assalto por ano e até as pombas fazem cocô em local demarcado, as mulheres também dirigem mal, pode acreditar.

Parte é culpa da genética. É fato que o cromossomo Y influencia na hora da pilotagem. Seria injusto da minha parte, contudo, fazer como o mestre e (por que não?) poeta Chorão e isentar essa
"porra de sociedade" do caso. Com dois irmãos homens e mais velhos, em certos casos afirmo com tranqüilidade que ninguém tinha me avisado, quando o assunto é volante.

Quando criança, subia meio a contragosto nos carrinhos de batida (ou bate-bate, como preferir) dos parques e ficava parada tomando porrada dos outros, ignorando os estímulos eufóricos do meu pai, do lado de fora
"Acelera, Silvinha, bate neles!". Depois de ficar encurralada tantas vezes é que me disseram que extersando (olha aí outra palavra que ninguém ensina! Até pouco tempo só conhecia o famoso "desvira") o carrinho pra direita ou esquerda, ele dava ré.

Demorei tanto pra saber dessa que já tinha feito uns doze anos e resolvi me aventurar no mundo do kart. Depois do caso da pobre menina que ficou careca quando o cabelo enroscou no motor, só faltei subir no carrinho com touca de banho de tanto medo.
"Direita acelera, esquerda freia, Silvinha", foquei nas sábias instruções do meu pai antes de me deixar no estacionamento do shopping para a tarde de emoções.

Primeira volta, aquela lambança: devem ter precisado chamar reforços pra resgatar tanta mulher entalada no meio dos pneus de proteção lateral. Eu, entalada no meio dos pneus de proteção lateral, claro, comecei a temer por minha posição no grid e ninguém vinha me salvar. No Mario Kart a nuvenzinha cobrava 2 moedas, mas pelo menos era pontual.

Foi quando lembrei da nem tão remota dica. Afundei o pé direito no acelerador e virava o volante com força para a direita. Tentando bravamente desafiar toda e qualquer lei da física, ouvi um grito.
"Cê tá loca, menina? Pára de acelerar!". Não recebi réplica quando contei do carrinho de batida. Ué, ninguém me falou...

Dois testes práticos no Detran depois, fui orgulhosa encher o tanque do carro com meu próprio dinheiro. Gasolina comum, devo admitir.
"Abre o tanque, querida". Quando o frentista viu minha mão se movendo para abrir a porta do carro e a minha cara de tacho, previu o pior e se adiantou "aperta aquele botão ali, ó". Outra vez, meu irmão desceu do carro para inspecionar o serviço e me pediu para abrir o capô. Ultrajada, não me contive: "abre você que está aí fora, ué".

Pode ser que você mulher, leitora assídua do blog argumente que não aprontou esses vexames e que, inclusive, não dirja mal. Pode ser que se identifique. Mas algum dia, infelizmente, irá endossar meu coro do "
ai, desculpa, eu não sabia" quando a coisa aperta. Ninguém fala de carro com mulher e pimba ... dá nisso! Culpa do sistema. Não sei se do câmbio ou do ABS.

Monday, July 07, 2008

Torpedo

Tem sempre quem reclame. Na época em que as fraldas das crianças eram de pano, as mães reclamavam do rebosteio que era pra lavar. Depois de gastar horas em bondes, ônibus velhos e ruas sem asfalto para chegar no almoço da sogra, a reclamação era geral. Quando demorava meses para se receber notícias de algum parente distante, reclamavam.

Hoje que tem até criança feita de plástico, carro que só falta passar cafézinho enquanto espera no farol e o bendito do celular 3G que permite que qualquer um protagonize a cena da Liv Tyler com a mãozinha no monitor chorando pelo Ben Affleck no Armageddon, continuam reclamando.

Argumentam que com essa modernidade toda, as coisas se resumem ao virtual, ninguém se encontra mais, os relacionamentos estão impessoais. Eu, que sou chegadinha numa impessoalidade, destaco - acima até do e-mail, o sms como o grande facilitador da comunicação atual.

O telefone já era, pessoal. Ficar gastando o gogó na frente de todo mundo é besteira. O e-mail ainda não está disponível no bolso de todos com a mesma facilidade de um celular. Ele dá uma tremida, você vê que chegou mensagem, lê se puder, responde se quiser e fim de "papo".

O sms (short message service) serve pro possível futuro casal trocar recadinhos (des) pretensiosos naquela fase de timidez sem tanto constrangimento e também pra marcar o fim do que não aconteceu, no caso de o outro simplesmente ignorar a mensagem. Um número desconhecido me mandou certa vez "amor, você é a coisa mais importante da minha vida". Ciente do óbvio engano, respondi avisando o remetente. Já imaginou escrever uma vida dessas e não receber resposta? Meses de análise. Quilos de chocolate.

Serve pra extorquir dinheiro do povo, que envia freneticamente os 'torpedos' para programas de televisão em busca de prêmios milionários, como foi o caso de minha amiga Manuella. Quis participar da promoção Notícias da Copa do Faustão e ao invés do Gol zero km na garagem, recebia inoportunos updates do que ocorria com a seleção brasileira de hora em hora. "Ronaldo marca três em treino pré-Croácia". Tudo com o fuso-horário da Alemanha, claro.

Outro dia, feliz da vida, abri o telefone ao ouvir o sinal de sms. Sexta à noite, era algum convite à vista. Baixe agora o ringtone do Créu para o seu celular. Mande mensagem para *147 contendo a palavra créu. Aproveite! Cogitei arremessar o telefone contra a parede. Spam no celular já é demais! Tem sempre quem reclame...




Thursday, July 03, 2008

SPTV

Pouco tempo atrás, dizia com ar de sabedoria milenar que o inverno é uma estação abençoada. As pessoas ficam mais elegantes. Isso vale, é claro, para um país como a França, por exemplo, que conhece bem tanto o calor escaldante quanto o frio que cobre as paisagens com neve. Aqui na terrinha a coisa não é bem assim.

Como ninguém está acostumado com a temperatura cada vez mais perto da barriga de uma cobra, na hora do aperto, salve-se quem puder! É calça de veludo cinza com meia-calça preta e bota marrom. Cachecol listrado com jaqueta florida e gorro azul royal. Luva vermelha, casaco de nylon amarelo e fuseau bege. Depois de algumas horas sacodindo no ônibus, o povo vai perdendo as peças como uma cebola descascada.

Prevenida que sou, há algumas semana vi na previsão a temperatura máxima 16 graus e vesti meu trenchcoat preto rumo ao trabalho. Fui andando pela avenida Paulista com a ilusão e a fleuma de quem apertava passos por Manhattan. Mãos nos bolsos, ombros tensionados e o cabelo esvoaçante. Torcia para encontrar a Ananda Apple em alguma esquina e protagonizar as famosas reportagens do SPTV. O
frio deste início de semana veio para castigar o paulistano. Sorte de quem se preveniu...

Todo santo dia repito o mesmo mantra quando o despertador toca: hoje eu não vou. É sério. Nunca faltei, hoje não vai dar mesmo. Atraso alguns minutos mas o resultado é que eu sempre vou. O mesmo não acontece com a academia, infelizmente. Sempre que posso, cabulo. Podem me oferecer vida eterna, mas trocar cobertor por esteira é coisa de gente doente.

Uma vez sentada de frente pro computador, tentava alcançar o mouse e a manga pesada do casaco cansava meu braço. Sem sistema de aquecimento, óbvio, o escritório estava pouco menos frio que as ruas. Andava pelas baias do escritório com a leveza do Papai Noel distribuindo presentes em dezembro.

Atire o primeiro Dove quem nunca cogitou seriamente postergar o banho por causa do frio. Não estou endossando os franceses, vejam bem. Só não é fácil se despir frente à frente fria que chegou por aqui. Qualquer dia contrato um capanga com uma HK 47 em mãos pra me “incentivar”: chuveiro, madame. Agora.

Por preguiça, deixei o verão passar e não escrevi nada falando mal do suadouro da gente fedida, do espírito libertino que as domina nem da Ananda Apple e suas imagens do povo lambuzado de picolé:
O paulistano faz o que pode para amenizar o calor, mas ele não dá trégua. Confira agora a previsão do tempo...

Tuesday, April 29, 2008

A Borracha

Com a bolsa grande o suficiente para comportar uma ninhada de câes malteses, deixo a minha poodle senil em casa e levo dentro dela o crachá, os cartões e um par de tênis pra me prevenir da incrível desgraça de se estragar um sapato novo. A distância que percorro é pouca e a diferença entre a Avenida Paulista e Cabul depois de um bombardeio, também.

Quanto mais ouço o barulho das britadeiras, mais aumento o volume da música. Quanto mais gente me esbarra no braço, mais idéias me vêm na cabeça. Quanto mais poças no chão, mais vontade de andar. Quanto mais fico quieta, mais quero falar. Quanto mais passada a hora, mais vontade de ficar acordada.

The more I try the eraser
The more that you appear

http://www.youtube.com/watch?v=YqPJHmnyCxU&feature=related

Tuesday, March 25, 2008

Um Ímã

A Amazônia, que apesar de ser insônia, não é o pulmão do mundo (bem alertou seu professor de geografia do segundo colegial), nos trouxe muitas benesses. O urucum, deixando os corajosos visitantes da Bahia com cor de tijolinho baiano graças à avançada tecnologia do Jet-Bronze. Dois banhos caprichados depois e sua cor de lagartixa anêmica está de volta. Tem também o glorioso Guaraná. Em cápsulas para dar aquela ajudinha antes da balada pesada ou em forma Champagne, eternizado pela Antarctica. A famigerada Monsanto vai pra lá nem tão clandestinamente assim para explorar as propriedades medicinais da flora... Mas quem diabos resolveu trazer o açaí pras nossas vidas?

Não me lembro dele nas nossas infâncias, sendo servido em tigelinhas, na praia, como se vê hoje em dia. De uns tempos pra cá, as academias são adornadas pelas faixas promocionais de açaí poderoso, onipotente, idolatrado, salve-salve. Devo dizer que minha curiosidade em experimentar demorou a aparecer. O visual da iguaria não é muito convidativo. Polpa congelada de açaí batida na hora, coberta com uva passa, granola, banana, pó de guaraná... Só faltou o vatapá e o chocolate granulado pra completar a lambança.

Num daqueles arroubos pré-férias de verão, passava alguns pares de horas na academia, e depois de parecer um São Bernardo fazendo cooper no sol, com a lingüinha pra fora, me sugeriram “tomar um açaí” . Animada, fui até o balcão e enquanto esperava ser atendida, passei o olho pelo panfleto. Falando de açaí, é claro. Informação nutricional por porção de 250g. do produto. Cálcio, Carboidrato, Vitamina C, Calorias: 617. Aproximei o olho, afastei o papel, olhei pros lados em busca de algum apoio moral. SEISCENTAS E DEZESSETE CALORIAS? Isso é mais da metade do que eu deveria comer diariamente. Sem contar a caloria da granola, uva passa e do bobó de camarão que eles jogam por cima. É mais negócio enfiar o dedo na tomada pra repor as energias.

Anos depois e o açaí continuava a ‘coqueluche’. Nomeava bares e pontos de encontro pela cidade afora. Confesso que também ia, mas preferia uma cervejinha, e algumas delas depois, resolvi mendigar uma colherada da tigela de um amigo. Encarei aquele purê meio roxo, meio marrom, cheio de elementos-surpresa dentro, me veio a imagem do Tião Galinha, personagem do Osmar Prado em alguma novela, que passava os capítulos imerso no mangue atrás de caranguejos. Dei uma misturada no conteúdo e enfiei a colherada na boca.

Primeiro mordi aqueles seres desconhecidos, depois engoli um pedaço escorregadio de banana e quando dei por mim, estava com uma porção gelada de lama na boca. Lama. Eu nunca comi lama, mas afirmo com propriedade que tem o mesmo gosto de açaí. E com certeza engorda menos. Mesmo com a pouca quantidade ingerida, fiquei com a coloração esquisita na boca, língua e dentes, fiz um bochecho com a cerveja pra me livrar das manchas e do gosto. Tempo depois e ainda me restavam alguns grãozinhos incomodando a gengiva, parecia que tinha voado areia da praia na minha boca.

Fresca, louca, herege, assassina da cultura gastronômica nacional... só não me chamaram de comunista porque atualmente os inimigos da sociedade não são mais os homens de vermelho, são as gorduras trans. E a maconha, claro. Outro par de anos depois e o bendito do açaí não cai de moda. O bar homônimo na Faria Lima, sim, graças a deus! Os vendedores de coco verde nas ruas também aderiram. O Alex Atala, no entanto, já tinha misturado a frutinha no jerimum desidratado e servido com filhote de ariranha albina há muito tempo.

Eu continuo achando que comer açaí faz tanto sentido quanto a letra do Djavan que o homenageia:

Açaí, guardiã
Zum de besouro, um ímã
Branca é a tez da manhã

Tuesday, January 29, 2008

Quando a água bate na bunda (ou no tornozelo)

Logo abaixo discorri sobre as maravilhas da chuva, me opus ao uso de guarda-chuva e falei mal de quem não gosta dos temporais. Uma verdadeira libertina da metrópole. Isso, é claro, até acordar atrasada nesta terça-feira, abrir a janela e não conseguir enxergar o prédio da frente tamanho o pé d’água. Chequei novamente se tinha colocado as lentes de contato. É isso mesmo, está caindo o mundo.

Final de janeiro e no lugar da saia e óculos escuro, pus a bota de cano alto e a jaqueta. Olhei assim, meio de lado – igual na música do RPM – pro guarda-chuva dentro do armário. Não era meu, evidente (Vitor, me explico melhor depois). Resolvi ter a prudência de carregá-lo comigo. A umidade do ar levou embora o efeito dos meus preciosos minutos dando o acabamento com chapinha no meu cabelo. Silvinha, penteia o cabelo, minha filha! Eu não, mãe, vai ficar ruim de qualquer jeito.

Em São Paulo e em boa parte do mundo, imagino, bastou um cuspe no asfalto para o transito parar. Hoje, a menos que São Pedro tenha organizado um campeonato de cusparadas a distância com seus conterrâneos lá do céu, a verdadeira forma líquida de H20, somada aos poluentes da atmosfera, causou o esperado. Depois de meia hora no carro quase parado, o conformismo: ah, hoje é dia em que todo mundo chega atrasado.

Ao sair do carro, abro o guarda-chuva. Xadrez, imponente. Não fossem as botas, seria facilmente infectada por leptospirose das poças da Avenida Paulista. Se fosse bebendo cerveja num iate, igual o pai da Daniela Sarahyba, vá lá, mas morrer por causa de xixi de rato em dia de chuva é muita humilhação.

Aperto o passo e a chuva também aperta. Agora venta e eu tento equilibrar com a mão esquerda o peso daquele verdadeiro guarda-sol de resort da Bahia. Quase dei carona pra três pessoas tamanho o espaço 'interno' do aparato.

Nos poucos quarteirões que andei, concluí que eu fui uma das únicas que acordou e conseguiu ver que a cidade estava se esvaindo em água. Se não isso, como explicar o porquê de as mulheres calçarem sandálias num dia como hoje? Hoje, inclusive, eu perdoaria aquelas que usam as famosas botas de biscatrance, pata de bode, também conhecida como a praga urbana. Mas não. A mulherada ia tentando pular as poças com os dedos de fora. Imagino a sensação de passar o dia inteiro com o pé úmido. Haja frieira!

O assunto no escritório é o dilúvio. As pessoas competem veladamente pelo título da maior demora pra chegar ao trabalho. Eu fico atenta à janela, com receio e que Noé e sua arca passem por aqui e me esqueçam. Enquanto ele não vem, acesso o Climatempo, na esperança de que nos próximos dias a chuva seja apenas de confete e serpentina.

Friday, December 14, 2007

São as Águas de Dezembro

Minha mãe, em sua eterna (e aparentemente inútil) busca por me fazer ver o lado bom das coisas, ao me ver resmungando por causa da chuva que caía, ponderava: as plantinhas precisam de água. Já imaginou o mundo sem plantinhas? Eu nunca vislumbrei tal cena, a primavera esplendorosa no jardim de casa me conformava e me fazia concordar com a véia.

Isso e todos aqueles verões que passamos no quintal ou na rua, tomando chuva do fim de tarde e ignorando os pedidos dos tios para sair do mar com medo dos raios. Em meados de janeiro, em 90 e poucos, na Baixada Santista, se não me engano, um casal de banhistas havia morrido por causa de um raio, o famoso “raio-mata-dois”. Mas eu não era banhista. Banhista é um termo bobo que a Globo usa pra designar os barrigudos cervejeiros e suas esposas que descem para Mongaguá e ficam curtindo o mormaço. Eu era uma criança que gostava de nadar na chuva e me recuperar dos pingos gelados na água quentinha do mar.


Tia Leila, que havia desistido de gastar a voz chamando as filhas e a sobrinhada toda, só sinalizava o dois com os dedos da mão e a gente saía correndo pra casa gargalhando do tal do raio assassino. E ele não matou ninguém. No fundo sabíamos (Tia Leila, inclusive) que era inofensivo.

Se for possível uma divisão tão boba das pessoas, ei-la: as que usam e as que não usam guarda-chuva. Eu sou do segundo grupo. Minha escova definitiva pode ter influenciado esse quadro. Queria ver se tivesse o cabelo pixaim, sairia correndo da chuva feito o diabo da cruz, já ouvi. Mas se vocês vissem a situação do meu cabelo agora, ponderariam se é essa mesmo a razão de eu não usar guarda-chuva. Gal Costa invejaria o volume da minha juba.

Pitoresco é eu escrever boa parte deste texto no meio de um temporal. Se gosto de tomar chuva na rua, na praia ou na casinha de sapé, dormir com o barulho dela batendo na janela é uma tortura chinesa (ou colombiana se considerarmos a pobre Ingrid Bettancourt, seqüestrada pelas FARC). Morro de medo. Vez e outra a mesma mãe que falava dos benefícios da chuva, entra no meu quarto pra conversar enquanto esperamos ela passar. Em novembro recomeça a época das tempestades e do meu sono atrapalhado.

Aqui na Avenida Paulista é um carnaval de estampas sobre as cabeças das pessoas. As “sombrinhas” parecem ter sido desenhadas pelo Joãosinho Trinta. Com um ventinho mais forte, o aparato - que custa R$5,00 nos dias ensolarados e R$15,00 durante os temporais, se desdobra inteiro e o pobre dono passa um vexame tentando se recompor. Eu mesma, incauta, esperando para atravessar a rua, já quase fui cegada pelo arame de um deles, o que só aumentou meu ódio. No metrô, já com as canelas molhadas até a metade, as pessoas sacodem os guarda-chuvas e vão molhando o pouco que restou de seco nos outros como se nada fosse. Depois o enfiam na bolsa, que deve acabar o dia cheirando a cachorro vira-lata.

Tem também os que, ao menor sinal de chuva, correm. Vi na televisão que você acaba se molhando mais se correr. Essa parte eu não sei porque mal me lembro como se calcula a velocidade média de um carro, mas sei que o risco de escorregar no piso molhado e se estabacar aumenta cerca de 80%. Esse dado, é claro, não é da Unicamp, eu mesma inventei. Se é pra molhar, molha direito, detesto garoinha fina. O ditado “se está na chuva, é pra se molhar” nunca foi tão bem aplicado por mim.

Guarda-chuva ocupa espaço, é feio, espeta o olho dos outros... Desistam. Guarda-chuva só atrapalha. Não há guarda-chuva nem contra o amor, já disseram (acho eu) os Titãs.

Monday, October 01, 2007

Repórter Esso

Abastecer o carro é uma tarefa ingrata. Pode parecer corriqueiro para o resto dos mortais que possui um automóvel, mas não para mim. Com o pequeno esforço do senhor meu pai, o tanque do carro aparecia, quase que milagrosamente, cheio sempre que preciso. Hoje, mesmo pifiamente assalariada, a missão se virou para mim.

A história começa com o ponteiro esplendoroso, em seu apogeu, e eu feliz, achando que a vida é bonita só porque o carro tem combustível. Quase encaro a Ayrton Senna rumo ao Rio de Janeiro pra comemorar. Antes disso, porém, preciso ir ao trabalho, à academia, à pet shop com o cachorro. Preciso ir à maldita Rua Augusta gastar em cerveja o dinheiro que poderia gastar com gasolina.

E o ponteiro vai descendo, aquela alegria toda vai dando lugar a um desconforto, uma coisa esquisita, quase angústia. Vou aproveitando os momentos de tanque cheio como quem adia a tragédia. Só que sei exatamente o que vai acontecer, sempre soube, não dá pra evitar.

E eu insisto. Em ir pro Alto de Pinheiros, pra Avenida Sumaré ver se o trânsito está mais ameno. E não está. E o ponteiro baixa. Só falto tapar o painel com um pano preto para não ver o que está acontecendo.

Da metade do tanque pra baixo, é o Ladeirão do Morumbi na banguela rumo à decepção. A verdade (a inexorável verdade) está cada vez mais próxima e eu finjo que é com o vizinho, que o tanque do meu carro é eterno, imbatível, que ele nasceu pra ser cheio de gasolina aditivada. Os outros é que não entendem, o carro deles é um Uno velho. O meu é um especial, feito sob medida para mim, ainda nem lançaram.

Quando olho para o painel novamente (e quase 20 dias depois), ela chega. A luz indicando falta de combustível acende. Amarela, me mandando prestar atenção. A qualquer momento eu acho que o carro não vai agüentar e que vai parar no meio da avenida. Eu sei que não vai, mas digo a todos que é pra chamar atenção.

No farol mais improvável, enquanto pondero se paro no posto ou me arrisco, a luz apaga. Ouço uma bateria de escola de samba tocando em homenagem ao suposto milagre. Sei que vou voltar a ver a luz acesa dentro de muito pouco, mas vê-la apagando voluntariamente me faz ter a sensação de que ela nunca mais vai acender e que eu nunca mais vou precisar parar no posto na vida. Que o meu carro, de tão especial, é movido aos trancos da suspensão quando passo em buracos ou me esqueço de reduzir na valeta, e não a derivados do petróleo.

Com o dinheiro na carteira, o tempo disponível para encher o tanque, checar o óleo, calibrar os pneus e até para ver o frentista lavar os vidros e passar aquele rodinho hipnotizante, eu encosto em qualquer posto sem bandeira, olho para o funcionário maltrapilho e peço para ele pôr dez da comum.

Amanhã ou depois eu vou ter que pedir o serviço completo e parar com essa mania de achar que o meu carro é especial, que não pára no meio da avenida. Fico vivendo das migalhas, da alegria e da decepção do acende-apaga da luzinha do painel. Parece fácil sacar o cartão de débito e falar “completa pra mim, por favor”. Mas não é. Pelo menos não para o meu carro tão especial que nem existe.

Monday, September 03, 2007

Não é homofobia. Só pode ser feitiçaria

Meu comparsa Rafa escreveu há alguns meses como identificar o homossexual disfarçado. Vou começar usando termos respeitosos como homossexual, mas fiquem tranqüilos que depois piora. Salvo raríssimas exceções me enganei a respeito desses pseudo-héteros. É nisso que se baseia a crise: é tanto gay que não dá mais pra disfarçar!

Me pergunto de onde vêm tantos armários para essa gente toda sair. Samuel Klein deve estar produzindo o triplo de guarda-roupas 6 portas padrão cerejeiro para se adequar à demanda dos cabeleireiros e professores de lambaeróbica das academias do subúrbio. Gastam fortunas na Renner e na L'Acqua di Fiori. Sem contar os reflexos no cabelo, mas isso fica pra outra vez.

É gay que não acaba mais. Não que eu queira que eles acabem, vejam bem. Só acho que poderiam diminuir um pouco a produção. É bom esclarecer que isso não é um apelo desesperado por machos . Suplico ao além por equilíbrio entre as espécies. Já é comprovados que hpa mais mulheres e boa parte dos homens ainda abandona o barco em alto-mar? Não dá. Aposto que se os marinheiros fossem gostosos, eles ficariam.

Antigamente era difícil ver a bicharada andando pelas ruas. Hoje em dia é possível identificar até as mini-bibas nos shoppings, pedindo bonequinhas Polly Pocket para as mães ingênuas ou um pouco mais velhas, andando em bandos de meninas de 13 anos sem apresentar ameaça a nenhuma delas.

A situação está tão insustentável que outro dia indo à casa de um amigo (bicha, é claro. Fui premiada com um sem-fim de amigos bichas), fui surpreendida no estacionamento do supermercado por uma espécie de pedinte. Estranhei. Praça Panamericana, bairro nobre, difícil ter mendigo ali. Eis que era um mezzo-pedinte. Tinha sido roubado e precisava de dinheiro para voltar para casa, era estudante da USP, mostrou a carteirinha de lá.

Viado. Meu deus, como era viado. Passava a mão no cabelinho comprido, falava arrastado em tom de lamúrias, dava voltinhas no próprio eixo e quando achei que nada mais pudesse acontecer, ele desabafou "I'm sorry, gente. Muito obrigada!". Pronto. Bicha mendiga pedinte, não falta mais nada. Ou melhor, falta. Homem. Hetero.

Se não jogam, descaradamente, água pra fora da bacia, outros também não deixam muito claro que gostam de mulher com a veemência necessária. É um tal de ir pra balada gay e de sair "só pra dançar" que eu nunca vi. Homem que é homem não dança, gente. Fica enchendo os pandulhos de whiskey investindo em todas as mulheres tal como um fuzileiro naval.

Não aliviaram a barra nem do meu personagem preferido dos Simpsons. O menininho de oito anos é indefinido. Está tudo de cabeça pra baixo e desmunhecando.

Devem ter feito um ebó pra mim, não é possível. Estou aqui, mais avulsa que o Tom Hanks no Náufrago. Só que a minha bola Wilson é, na verdade, Samantha! Operada... Socorro.

Se meus amigos e leitores gays chegaram até aqui, saibam que eu amo vocês. E o Ralph Wiggum também. Não perco o amigo nem a piada.

Sunday, August 26, 2007

Isso tá me cheirando...

Não sei se é apenas um modismo recente ou se as propagandas de “Bom-Ar” vêm tomando conta dos intervalos na tv (aberta ou fechada). De uma hora pra outra me vi na obrigação de perfumar o ambiente. Como se eu morasse à beira do Rio Pinheiros ou num esgoto a céu aberto. Só que eu não moro.

A começar por aquela miniatura de imbecil que aparece gritando pra mãe que quer fazer cocô. Aquele menino já tem idade pra ler e escrever e ainda tem a impáfia de chamar a mãe pra ir ao banheiro? Francamente! Na casa do infante colega, o tal do Pedrinho, tem Glade no banheiro. Elimina os maus odores.

Ok, fezes (mesmo da Madonna ou do Leonardo DiCaprio) realmente exalam maus odores. Contudo, quem já riscou um fósforo depois das necessidades fisiológicas sabe que é uma solução muitíssimo mais eficaz do que qualquer aparelhinho modernoso instalado ao lado da privada (privada mesmo, nem vem com essa de vaso, vaso é pra planta) cujo timer (sim, um timer!) borrifa o produto de tempo em tempo.

Tem também um outro aparato desodorizante, desta vez para geladeiras. Uma repaginação do “ovo azul” ou do pó de café que se punha (ou melhor, sua avó punha) entre iogurtes e margarinas para tirar os tais dos odores indesejados.

Aqui em casa temos o hábito de enrolar os alimentos em magipack, papel alumínio e de jogar fora o que estiver estragando. Nada de peixes ou camarões comemorando aniversário de 3 meses ao lado de requeijão embolorado ou de folhas de alface murchas. Garanto que basta isso para manter sua geladeira sem aromas indevidos.

E tem outra: não é sempre preciso sentir cheiro de flores do campo, brisa do mar, trigais ensolarados ou strawberry fields forever. Fica essa frescura de incenso, óleo aromatizante… Já cheguei a sair de algumas lojas com a lente de contato irritada e defumada pela fumaça, como se tivesse participado de uma pajelança. Meu Clinique Happy foi reduzido a quase nada perto dos ylang-ylang xamânicos de hare krishnas da Henrique Schaumman.

Quer um conselho? Faça faxina regularmente, deixe o ambiente arejado e peça aos inevitáveis amigos fumantes que acelerem suas mortes no terraço. Melhor do que mascarar a fedentina depois.