Tuesday, January 27, 2009

Philips - Sense AND Simplicity

Manu,

Você, melhor até do que eu, sabe que às vezes escrever é o melhor jeito de falar. Mesmo para mim, que frequentemente te condeno com a minha incontinência verbal. Você, nas poucas vezes que falou ao invés de ouvir, com essa fé que te faz otimista demais, dispensou a ajuda do Rei e profetizou “vai dar tudo bem”. Desde a primeira queda do controle remoto.

Você estava lá desde o comecinho, quando eu ainda nem tinha pretensão de roubar o quarto com banheiro e TV do meu irmão. Quando era só o computador. Aliás, nem sei se sabe, mas a história começou errada. O controle da TV já não estava muito bom das pernas (ou dos botões) quando eu cheguei, mas pensei que não fosse nada de mais.

Antes mesmo de saber da primeira queda, você me alertou. Mas, pimba! O negócio deu um duplo twist carpado à La Daiane dos Santos e foi um pedaço pra cada lado. Remontei tudo rapidinho pra ninguém perceber. Porém, logo notei que tinha que fazer cada vez mais força pra apertar os botões. Achei que não tinha problema, afinal, usava mais o controle da TV a cabo.

Parecia uma coisa sobrenatural: era sempre o pobre controle da TV que se espatifava no chão de madeira. Você falou mais de uma vez pra eu tomar cuidado, resmungou “não é possível, Silvinha” e até ameaçou “Silvinha, é a última vez que eu vou falar pra você aposentar esse controle”. E eu, nada. Como é que eu ia viver sem controle remoto, meu deus?

Dava pra fazer muita coisa, você até sugeriu. Comprar outro, inclusive. mas era tudo muito difícil pra mim. Apesar de tentar fazer parecer que não, você entendia o que se passava comigo toda vez que o controle se estraçalhava. Às vezes a culpa era inteiramente minha (ou será que foram todas?).

Aos poucos fui tomando bem mais cuidado e deixando ele de lado, guardado na gaveta do criado-mudo e de vez em quando até programava o timer na própria TV pra não colocá-lo em perigo. A idéia de submeter o controle aos perigos desse mundo era muito tentadora.

E assim foi até que de uma hora pra outra, levaram a TV e o controle embora. Pra praia, bem longe. Até ajudei a carregar a TV, enrolei o controle antigo num papel bolha que achei por aqui. Depois eu chiliquei, claro. E você me acalmou dizendo que eu ia sobreviver, que ia dar tudo bem.

No começo foi complicado. Não ligava mais na VHI pra ver Clips Pra Acordar todo dia de manhã antes de sair da cama, nem adormecia assistindo os Simpsons de madrugada. Às vezes capotava no sofá da sala. Hoje, conforme você ensinou, estou começando a entender que, uma vez acostumada com a TV e com o controle no quarto, você nunca mais desacostuma. Não adianta tentar ir contra.

Eu fui levando (mesmo com toda a Brahma, a chama, lama). A gente vai levando. E agora estou no Submarino procurando uma TV nova pra comprar. Não quero nem de plasma, não preciso. Mas o controle vai ter que estar zero quilômetro e eu vou ter mais cuidado com o pobrezinho. Você sabe das coisas, Manu!

Obs: eu sei que esse controle deve quebrar como o outro, que um raio pode queimar a TV na primeira semana, que pode dar tudo errado outra vez. Mas eu tenho provas de que realmente “dá tudo bem” no final. 

Wednesday, December 17, 2008

Galeão-Cumbica

O caos aéreo que estragou o passeio (e os negócios) de muita gente no ano passado, na verdade começou há muito tempo, quando resolveram dar a paternidade da aviação ao brasileiro Santos Dumont. Pra não culpar o pobre homem que nem está mais aqui pra se defender, retifico: o caos aéreo começou quando o primeiro vôo saiu destas terras carregando dezenas de descendentes de Peri.

Qualquer cidadão que já tenha passado pela experiência de entrar num vôo (doméstico ou internacional) conseguiu perceber os arroubos de ansiedade e falta de educação nos outros passageiros. Tradução: brasileiro fazendo arruaça. Com pouca vivência desses casos no exterior, continuo afirmando que o problema é mesmo a nacionalidade. Somo aí o novo-riquismo, que se espalha a cada segundo, e a desgraça está feita.

O povo na sala de embarque reclama com a companhia aérea pois não podem aguardar na área vip. "Só para a primeira classe". Entre os pães de queijo superfaturados e crianças sentadas no chão, o que se ouve é um murmurinho sobre a demora. Nada muito complicado de se entender se considerarmos que se trata de um avião, não de um ônibus que passa rápida e sorrateiramente pelo ponto nas ruas.

Por este mesmo motivo, não seria necessário se acotovelar com os passantes e empurrar os funcionários para pegar o primeiro lugar da fila antes mesmo de ouvirem o final do anúncio do vôo vindo da famosa voz anasalada. Mas não. As pessoas agem como se o avião fosse engatar uma primeira marcha e sumir pelos ares com a velocidade de um beija-flor.

Parecem também ignorar o fato de que OS LUGARES SÃO MARCADOS assim que é feito o check-in. Se não estivessem tentando engambelar a funcionária quanto ao excesso de peso das milhares malinhas CVC, teriam prestado atenção nisso, e a uma hora dessas estariam ainda sentados, esperando que o portão de embarque fosse realmente aberto para, então, embarcarem. 

A fila no melhor estilo último dia de apostas na MegaSena acumulada não teria razão para existir, mas a algazarra está feita. Os funcionários vão tentando pôr ordem no galinheiro. A família que tentou despachar as duzentas malas ainda empurra mais uma no carrinho, ignorando a determinação BAGAGEM DE MÃO. 

O bagageiro do avião, obviamente, não é preparado para acomodar uma mala do tamanho de um filhote de rinoceronte, mas o cidadão insiste em contrariar aqueeeeela lei da física e continua esmurrando a sacola pra ver se faz caber. É preciso intervenção da comissária, que manda o homem sentar e enfia a mala embaixo da poltona com dificuldade.

Concordo que é bem entediante ficar ouvindo as recomendações dos procedimentos e acho inclusive, que se precisar chegar no extremo da queda  automática de máscaras de oxigênio, vai todo mundo mandar o procedimento às favas. Salve-se quem puder! No entanto, ficar conversando em altíssimos decibéis enquanto a mocinha de cabelo emplastado de gel fala não é exatamente o que podemos chamar de cortesia. 

Os bancos precisam, sim, estar a 90 graus e não existe razão pela qual a mesinha deva estar abaixada nos primeiros minutos após o embarque. Lá do fundo dá pra ouvir a fulana papeando no celular e a aeromoça (digo, comissária) tentando abordar o adolescente "rebelde" que insiste um continuar com o fone do ipod nos ouvidos, em volume suficiente para estourar seus tímpanos antes da decolagem. 

Eu não sei dizer, mas se é solicitado que o cinto seja afivelado e que assim se mantenha até que o sinal esteja apagado, deve haver um motivo. Levando em conta que manter o cinto afivelado durante 20 minutos não pode ser comparado com empalamento ou algum método de tortura oriundo da Ditadura Militar, não me parece pedir muito que isso seja feito. 

Sei de gente cuja fantasia sexual envolve banheiro de avião, mas à balzaquiana que escolheu encarar Guarulhos-Miami num terninho azul turquesa e calçando salto alto ficou faltando mesmo quem a fizesse companhia. A fulana não sossega na poltrona e vai raspando a busanfa nos outros para conseguir passagem. À parte a inquetação sobre o cardápio, o gelo na coca-cola e o tiozão que resolve pedir vinho numa ponte-aérea que dura 45 minutos, o vôo segue tranquilamente. 

O comandante anuncia a preparação para pouso e agradece a escolha dos passageiros (dependendo do caso, reza um Pai Nosso). A comissária repete toda a via crucis em busca do desavisado que insiste em tentar usar o blackberry.

Mal o avião pára na pista (hoje em dia não basta mais estar em terra), pede-se pro povo se manter sentado, mas já dá pra ouvir o plé-pléc da massa enlouquecida soltando o cinto mesmo com o maldito do aviso aceso! Instantes depois, como numa missa, todo mundo levanta ao mesmo tempo tentando pegar as coisas no bagageiro e vai se formando outra fila de INSS no corredor. Acho que é medo de irem parar no "Aeroporto Terminal Princesa Isabel", vai saber...


Thursday, September 04, 2008

Usucapião

Sou do tempo da locadora de bairro. Saudosa Vídeo Brasil, um sobradinho meio escuro que apertava as fitas VHS nas prateleiras lá pelo início da década passada. Não tão saudosa é a memória de uma das últimas vezes em que estive lá, aos 5 anos de idade, e quase fui seqüestrada, mas isso fica para um outro dia.

Substitutas foram aparecendo ao longo do tempo, cada vez mais perto de casa, mas sempre com a camaradagem do funcionário, que fazia sugestões e vez ou outra até livrava os atrasados da multa na devolução da fita. A seção para 'adultos' ficava separada por uma sugestiva porta de Saloon e era divertido analisar que tipo de adulto entrava lá (geralmente um gordinho com camiseta verde-musgo, chinelo e pouco cabelo).

Alguns anos se passaram e em menos de dois meses de obra foi erguida a Blockbuster do bairro. "As lojas são pré-fabricadas em dry-wall", justificou minha mãe. Bexiga, pirulito, revistinha, Nintendo 64 à disposição pras criancinhas treinarem as novas táticas. Acabou aquela história de esperar devolverem o filme. Na época do lançamento, havia tantas cópias de Seven disponíveis, que se juntassem todas poderiam fazer páreo ao Muro de Berlin. Pacote de 2kg de Ruffles, Pipoca Extra Manteiga Temperada no combo com 8 litros de Coca-Cola por apenas 89,90 e você ainda ganha uma caneca do Titanic!

Confesso que a coisa ficou um pouco impessoal. Não bastava mais dizer que eu era a filha da minha mãe para alugar um filme. Agora tinha que mostrar a carteirinha, confirmar o telefone e, claro, pagar antecipadamente. Os pré-adolescentes contavam as moedas na fila na esperança de sobrar um troquinho pro pacotinho pífio e superfaturado de M&Ms, já que o Confete havia perdido a vez.

Outra década se passou e frente à TV a cabo, Pay-Per-View, afins e o valor bem salgado do aluguel, o reinado da Blockbuster já mostrava uma perna meio manca. O pirulito e a bexiga, porém, continuavam lá. Foi quando desatenta, fui em busca de um DVD, estacionei o carro e notei que a loja tinha sido diminuída quase pela metade e agora era vizinha de uma vistosa Drogasil.

Peraí, isso aqui não é Locadora! A Blockbuster fora invadida pelas Lojas Americanas! Cafeteira, forninho, telefone celular, sutiãs e calcinhas cor de pele caindo dos cabides, um chute no triciclo infantil, aparelhos de dvd AKON, barris de acrílico cuspindo bombons Serenata de Amor.

Uma leve esbarrada com o quadril na caixa de boneca com feição de Sex Shop, travesseiros de pena em promoção e pratos Duralex marrons. Quase junto com o suposto pote de ouro que se encontra no fim do arco-íris e baixando um pouco a cabeça pra não enfiar a testa no ovo de páscoa pendurado no teto, é possível avistar os dvds para aluguel.

A maioria são, obviamente, os blockbusters do cinema, como sempre. Mas ao contrário do que era antes, tentar encontrar qualquer filme lançado há mais de cinco anos é mais improvável do que ir pagar as compras na saída e a caixa não ter bigode.

Usucapiram a Blockbuster. É culpa do MST? Quem eu chamo, o INCRA? Não sei se xingo o José Rainha ou critico a má distribuição dos latifúndios. Será a vingança dos brasileiros contra o domínio do império americano sobre nossas locadoras no passado?

Fato é que, tal como a megacorporação ianque, as Americanas Express estão mudando os hábitos por aqui. "Nunca na história deste país" se viu tanta gente andando pela rua segurando latas de pringles genéricas e pacotes de meias esportivas. No mais, daqui a pouco a Globo reprisa Senhor dos Anéis dublado no Super Cine.

Tuesday, July 22, 2008

Perigo Constante

Sou a primeira a falar "é mulher" quando alguma calamidade acontece no trânsito dessa ou de qualquer outra cidade. Em Estocolmo, onde ocorre um assalto por ano e até as pombas fazem cocô em local demarcado, as mulheres também dirigem mal, pode acreditar.

Parte é culpa da genética. É fato que o cromossomo Y influencia na hora da pilotagem. Seria injusto da minha parte, contudo, fazer como o mestre e (por que não?) poeta Chorão e isentar essa
"porra de sociedade" do caso. Com dois irmãos homens e mais velhos, em certos casos afirmo com tranqüilidade que ninguém tinha me avisado, quando o assunto é volante.

Quando criança, subia meio a contragosto nos carrinhos de batida (ou bate-bate, como preferir) dos parques e ficava parada tomando porrada dos outros, ignorando os estímulos eufóricos do meu pai, do lado de fora
"Acelera, Silvinha, bate neles!". Depois de ficar encurralada tantas vezes é que me disseram que extersando (olha aí outra palavra que ninguém ensina! Até pouco tempo só conhecia o famoso "desvira") o carrinho pra direita ou esquerda, ele dava ré.

Demorei tanto pra saber dessa que já tinha feito uns doze anos e resolvi me aventurar no mundo do kart. Depois do caso da pobre menina que ficou careca quando o cabelo enroscou no motor, só faltei subir no carrinho com touca de banho de tanto medo.
"Direita acelera, esquerda freia, Silvinha", foquei nas sábias instruções do meu pai antes de me deixar no estacionamento do shopping para a tarde de emoções.

Primeira volta, aquela lambança: devem ter precisado chamar reforços pra resgatar tanta mulher entalada no meio dos pneus de proteção lateral. Eu, entalada no meio dos pneus de proteção lateral, claro, comecei a temer por minha posição no grid e ninguém vinha me salvar. No Mario Kart a nuvenzinha cobrava 2 moedas, mas pelo menos era pontual.

Foi quando lembrei da nem tão remota dica. Afundei o pé direito no acelerador e virava o volante com força para a direita. Tentando bravamente desafiar toda e qualquer lei da física, ouvi um grito.
"Cê tá loca, menina? Pára de acelerar!". Não recebi réplica quando contei do carrinho de batida. Ué, ninguém me falou...

Dois testes práticos no Detran depois, fui orgulhosa encher o tanque do carro com meu próprio dinheiro. Gasolina comum, devo admitir.
"Abre o tanque, querida". Quando o frentista viu minha mão se movendo para abrir a porta do carro e a minha cara de tacho, previu o pior e se adiantou "aperta aquele botão ali, ó". Outra vez, meu irmão desceu do carro para inspecionar o serviço e me pediu para abrir o capô. Ultrajada, não me contive: "abre você que está aí fora, ué".

Pode ser que você mulher, leitora assídua do blog argumente que não aprontou esses vexames e que, inclusive, não dirja mal. Pode ser que se identifique. Mas algum dia, infelizmente, irá endossar meu coro do "
ai, desculpa, eu não sabia" quando a coisa aperta. Ninguém fala de carro com mulher e pimba ... dá nisso! Culpa do sistema. Não sei se do câmbio ou do ABS.

Monday, July 07, 2008

Torpedo

Tem sempre quem reclame. Na época em que as fraldas das crianças eram de pano, as mães reclamavam do rebosteio que era pra lavar. Depois de gastar horas em bondes, ônibus velhos e ruas sem asfalto para chegar no almoço da sogra, a reclamação era geral. Quando demorava meses para se receber notícias de algum parente distante, reclamavam.

Hoje que tem até criança feita de plástico, carro que só falta passar cafézinho enquanto espera no farol e o bendito do celular 3G que permite que qualquer um protagonize a cena da Liv Tyler com a mãozinha no monitor chorando pelo Ben Affleck no Armageddon, continuam reclamando.

Argumentam que com essa modernidade toda, as coisas se resumem ao virtual, ninguém se encontra mais, os relacionamentos estão impessoais. Eu, que sou chegadinha numa impessoalidade, destaco - acima até do e-mail, o sms como o grande facilitador da comunicação atual.

O telefone já era, pessoal. Ficar gastando o gogó na frente de todo mundo é besteira. O e-mail ainda não está disponível no bolso de todos com a mesma facilidade de um celular. Ele dá uma tremida, você vê que chegou mensagem, lê se puder, responde se quiser e fim de "papo".

O sms (short message service) serve pro possível futuro casal trocar recadinhos (des) pretensiosos naquela fase de timidez sem tanto constrangimento e também pra marcar o fim do que não aconteceu, no caso de o outro simplesmente ignorar a mensagem. Um número desconhecido me mandou certa vez "amor, você é a coisa mais importante da minha vida". Ciente do óbvio engano, respondi avisando o remetente. Já imaginou escrever uma vida dessas e não receber resposta? Meses de análise. Quilos de chocolate.

Serve pra extorquir dinheiro do povo, que envia freneticamente os 'torpedos' para programas de televisão em busca de prêmios milionários, como foi o caso de minha amiga Manuella. Quis participar da promoção Notícias da Copa do Faustão e ao invés do Gol zero km na garagem, recebia inoportunos updates do que ocorria com a seleção brasileira de hora em hora. "Ronaldo marca três em treino pré-Croácia". Tudo com o fuso-horário da Alemanha, claro.

Outro dia, feliz da vida, abri o telefone ao ouvir o sinal de sms. Sexta à noite, era algum convite à vista. Baixe agora o ringtone do Créu para o seu celular. Mande mensagem para *147 contendo a palavra créu. Aproveite! Cogitei arremessar o telefone contra a parede. Spam no celular já é demais! Tem sempre quem reclame...




Thursday, July 03, 2008

SPTV

Pouco tempo atrás, dizia com ar de sabedoria milenar que o inverno é uma estação abençoada. As pessoas ficam mais elegantes. Isso vale, é claro, para um país como a França, por exemplo, que conhece bem tanto o calor escaldante quanto o frio que cobre as paisagens com neve. Aqui na terrinha a coisa não é bem assim.

Como ninguém está acostumado com a temperatura cada vez mais perto da barriga de uma cobra, na hora do aperto, salve-se quem puder! É calça de veludo cinza com meia-calça preta e bota marrom. Cachecol listrado com jaqueta florida e gorro azul royal. Luva vermelha, casaco de nylon amarelo e fuseau bege. Depois de algumas horas sacodindo no ônibus, o povo vai perdendo as peças como uma cebola descascada.

Prevenida que sou, há algumas semana vi na previsão a temperatura máxima 16 graus e vesti meu trenchcoat preto rumo ao trabalho. Fui andando pela avenida Paulista com a ilusão e a fleuma de quem apertava passos por Manhattan. Mãos nos bolsos, ombros tensionados e o cabelo esvoaçante. Torcia para encontrar a Ananda Apple em alguma esquina e protagonizar as famosas reportagens do SPTV. O
frio deste início de semana veio para castigar o paulistano. Sorte de quem se preveniu...

Todo santo dia repito o mesmo mantra quando o despertador toca: hoje eu não vou. É sério. Nunca faltei, hoje não vai dar mesmo. Atraso alguns minutos mas o resultado é que eu sempre vou. O mesmo não acontece com a academia, infelizmente. Sempre que posso, cabulo. Podem me oferecer vida eterna, mas trocar cobertor por esteira é coisa de gente doente.

Uma vez sentada de frente pro computador, tentava alcançar o mouse e a manga pesada do casaco cansava meu braço. Sem sistema de aquecimento, óbvio, o escritório estava pouco menos frio que as ruas. Andava pelas baias do escritório com a leveza do Papai Noel distribuindo presentes em dezembro.

Atire o primeiro Dove quem nunca cogitou seriamente postergar o banho por causa do frio. Não estou endossando os franceses, vejam bem. Só não é fácil se despir frente à frente fria que chegou por aqui. Qualquer dia contrato um capanga com uma HK 47 em mãos pra me “incentivar”: chuveiro, madame. Agora.

Por preguiça, deixei o verão passar e não escrevi nada falando mal do suadouro da gente fedida, do espírito libertino que as domina nem da Ananda Apple e suas imagens do povo lambuzado de picolé:
O paulistano faz o que pode para amenizar o calor, mas ele não dá trégua. Confira agora a previsão do tempo...

Tuesday, April 29, 2008

A Borracha

Com a bolsa grande o suficiente para comportar uma ninhada de câes malteses, deixo a minha poodle senil em casa e levo dentro dela o crachá, os cartões e um par de tênis pra me prevenir da incrível desgraça de se estragar um sapato novo. A distância que percorro é pouca e a diferença entre a Avenida Paulista e Cabul depois de um bombardeio, também.

Quanto mais ouço o barulho das britadeiras, mais aumento o volume da música. Quanto mais gente me esbarra no braço, mais idéias me vêm na cabeça. Quanto mais poças no chão, mais vontade de andar. Quanto mais fico quieta, mais quero falar. Quanto mais passada a hora, mais vontade de ficar acordada.

The more I try the eraser
The more that you appear

http://www.youtube.com/watch?v=YqPJHmnyCxU&feature=related

Tuesday, March 25, 2008

Um Ímã

A Amazônia, que apesar de ser insônia, não é o pulmão do mundo (bem alertou seu professor de geografia do segundo colegial), nos trouxe muitas benesses. O urucum, deixando os corajosos visitantes da Bahia com cor de tijolinho baiano graças à avançada tecnologia do Jet-Bronze. Dois banhos caprichados depois e sua cor de lagartixa anêmica está de volta. Tem também o glorioso Guaraná. Em cápsulas para dar aquela ajudinha antes da balada pesada ou em forma Champagne, eternizado pela Antarctica. A famigerada Monsanto vai pra lá nem tão clandestinamente assim para explorar as propriedades medicinais da flora... Mas quem diabos resolveu trazer o açaí pras nossas vidas?

Não me lembro dele nas nossas infâncias, sendo servido em tigelinhas, na praia, como se vê hoje em dia. De uns tempos pra cá, as academias são adornadas pelas faixas promocionais de açaí poderoso, onipotente, idolatrado, salve-salve. Devo dizer que minha curiosidade em experimentar demorou a aparecer. O visual da iguaria não é muito convidativo. Polpa congelada de açaí batida na hora, coberta com uva passa, granola, banana, pó de guaraná... Só faltou o vatapá e o chocolate granulado pra completar a lambança.

Num daqueles arroubos pré-férias de verão, passava alguns pares de horas na academia, e depois de parecer um São Bernardo fazendo cooper no sol, com a lingüinha pra fora, me sugeriram “tomar um açaí” . Animada, fui até o balcão e enquanto esperava ser atendida, passei o olho pelo panfleto. Falando de açaí, é claro. Informação nutricional por porção de 250g. do produto. Cálcio, Carboidrato, Vitamina C, Calorias: 617. Aproximei o olho, afastei o papel, olhei pros lados em busca de algum apoio moral. SEISCENTAS E DEZESSETE CALORIAS? Isso é mais da metade do que eu deveria comer diariamente. Sem contar a caloria da granola, uva passa e do bobó de camarão que eles jogam por cima. É mais negócio enfiar o dedo na tomada pra repor as energias.

Anos depois e o açaí continuava a ‘coqueluche’. Nomeava bares e pontos de encontro pela cidade afora. Confesso que também ia, mas preferia uma cervejinha, e algumas delas depois, resolvi mendigar uma colherada da tigela de um amigo. Encarei aquele purê meio roxo, meio marrom, cheio de elementos-surpresa dentro, me veio a imagem do Tião Galinha, personagem do Osmar Prado em alguma novela, que passava os capítulos imerso no mangue atrás de caranguejos. Dei uma misturada no conteúdo e enfiei a colherada na boca.

Primeiro mordi aqueles seres desconhecidos, depois engoli um pedaço escorregadio de banana e quando dei por mim, estava com uma porção gelada de lama na boca. Lama. Eu nunca comi lama, mas afirmo com propriedade que tem o mesmo gosto de açaí. E com certeza engorda menos. Mesmo com a pouca quantidade ingerida, fiquei com a coloração esquisita na boca, língua e dentes, fiz um bochecho com a cerveja pra me livrar das manchas e do gosto. Tempo depois e ainda me restavam alguns grãozinhos incomodando a gengiva, parecia que tinha voado areia da praia na minha boca.

Fresca, louca, herege, assassina da cultura gastronômica nacional... só não me chamaram de comunista porque atualmente os inimigos da sociedade não são mais os homens de vermelho, são as gorduras trans. E a maconha, claro. Outro par de anos depois e o bendito do açaí não cai de moda. O bar homônimo na Faria Lima, sim, graças a deus! Os vendedores de coco verde nas ruas também aderiram. O Alex Atala, no entanto, já tinha misturado a frutinha no jerimum desidratado e servido com filhote de ariranha albina há muito tempo.

Eu continuo achando que comer açaí faz tanto sentido quanto a letra do Djavan que o homenageia:

Açaí, guardiã
Zum de besouro, um ímã
Branca é a tez da manhã

Tuesday, January 29, 2008

Quando a água bate na bunda (ou no tornozelo)

Logo abaixo discorri sobre as maravilhas da chuva, me opus ao uso de guarda-chuva e falei mal de quem não gosta dos temporais. Uma verdadeira libertina da metrópole. Isso, é claro, até acordar atrasada nesta terça-feira, abrir a janela e não conseguir enxergar o prédio da frente tamanho o pé d’água. Chequei novamente se tinha colocado as lentes de contato. É isso mesmo, está caindo o mundo.

Final de janeiro e no lugar da saia e óculos escuro, pus a bota de cano alto e a jaqueta. Olhei assim, meio de lado – igual na música do RPM – pro guarda-chuva dentro do armário. Não era meu, evidente (Vitor, me explico melhor depois). Resolvi ter a prudência de carregá-lo comigo. A umidade do ar levou embora o efeito dos meus preciosos minutos dando o acabamento com chapinha no meu cabelo. Silvinha, penteia o cabelo, minha filha! Eu não, mãe, vai ficar ruim de qualquer jeito.

Em São Paulo e em boa parte do mundo, imagino, bastou um cuspe no asfalto para o transito parar. Hoje, a menos que São Pedro tenha organizado um campeonato de cusparadas a distância com seus conterrâneos lá do céu, a verdadeira forma líquida de H20, somada aos poluentes da atmosfera, causou o esperado. Depois de meia hora no carro quase parado, o conformismo: ah, hoje é dia em que todo mundo chega atrasado.

Ao sair do carro, abro o guarda-chuva. Xadrez, imponente. Não fossem as botas, seria facilmente infectada por leptospirose das poças da Avenida Paulista. Se fosse bebendo cerveja num iate, igual o pai da Daniela Sarahyba, vá lá, mas morrer por causa de xixi de rato em dia de chuva é muita humilhação.

Aperto o passo e a chuva também aperta. Agora venta e eu tento equilibrar com a mão esquerda o peso daquele verdadeiro guarda-sol de resort da Bahia. Quase dei carona pra três pessoas tamanho o espaço 'interno' do aparato.

Nos poucos quarteirões que andei, concluí que eu fui uma das únicas que acordou e conseguiu ver que a cidade estava se esvaindo em água. Se não isso, como explicar o porquê de as mulheres calçarem sandálias num dia como hoje? Hoje, inclusive, eu perdoaria aquelas que usam as famosas botas de biscatrance, pata de bode, também conhecida como a praga urbana. Mas não. A mulherada ia tentando pular as poças com os dedos de fora. Imagino a sensação de passar o dia inteiro com o pé úmido. Haja frieira!

O assunto no escritório é o dilúvio. As pessoas competem veladamente pelo título da maior demora pra chegar ao trabalho. Eu fico atenta à janela, com receio e que Noé e sua arca passem por aqui e me esqueçam. Enquanto ele não vem, acesso o Climatempo, na esperança de que nos próximos dias a chuva seja apenas de confete e serpentina.

Friday, December 14, 2007

São as Águas de Dezembro

Minha mãe, em sua eterna (e aparentemente inútil) busca por me fazer ver o lado bom das coisas, ao me ver resmungando por causa da chuva que caía, ponderava: as plantinhas precisam de água. Já imaginou o mundo sem plantinhas? Eu nunca vislumbrei tal cena, a primavera esplendorosa no jardim de casa me conformava e me fazia concordar com a véia.

Isso e todos aqueles verões que passamos no quintal ou na rua, tomando chuva do fim de tarde e ignorando os pedidos dos tios para sair do mar com medo dos raios. Em meados de janeiro, em 90 e poucos, na Baixada Santista, se não me engano, um casal de banhistas havia morrido por causa de um raio, o famoso “raio-mata-dois”. Mas eu não era banhista. Banhista é um termo bobo que a Globo usa pra designar os barrigudos cervejeiros e suas esposas que descem para Mongaguá e ficam curtindo o mormaço. Eu era uma criança que gostava de nadar na chuva e me recuperar dos pingos gelados na água quentinha do mar.


Tia Leila, que havia desistido de gastar a voz chamando as filhas e a sobrinhada toda, só sinalizava o dois com os dedos da mão e a gente saía correndo pra casa gargalhando do tal do raio assassino. E ele não matou ninguém. No fundo sabíamos (Tia Leila, inclusive) que era inofensivo.

Se for possível uma divisão tão boba das pessoas, ei-la: as que usam e as que não usam guarda-chuva. Eu sou do segundo grupo. Minha escova definitiva pode ter influenciado esse quadro. Queria ver se tivesse o cabelo pixaim, sairia correndo da chuva feito o diabo da cruz, já ouvi. Mas se vocês vissem a situação do meu cabelo agora, ponderariam se é essa mesmo a razão de eu não usar guarda-chuva. Gal Costa invejaria o volume da minha juba.

Pitoresco é eu escrever boa parte deste texto no meio de um temporal. Se gosto de tomar chuva na rua, na praia ou na casinha de sapé, dormir com o barulho dela batendo na janela é uma tortura chinesa (ou colombiana se considerarmos a pobre Ingrid Bettancourt, seqüestrada pelas FARC). Morro de medo. Vez e outra a mesma mãe que falava dos benefícios da chuva, entra no meu quarto pra conversar enquanto esperamos ela passar. Em novembro recomeça a época das tempestades e do meu sono atrapalhado.

Aqui na Avenida Paulista é um carnaval de estampas sobre as cabeças das pessoas. As “sombrinhas” parecem ter sido desenhadas pelo Joãosinho Trinta. Com um ventinho mais forte, o aparato - que custa R$5,00 nos dias ensolarados e R$15,00 durante os temporais, se desdobra inteiro e o pobre dono passa um vexame tentando se recompor. Eu mesma, incauta, esperando para atravessar a rua, já quase fui cegada pelo arame de um deles, o que só aumentou meu ódio. No metrô, já com as canelas molhadas até a metade, as pessoas sacodem os guarda-chuvas e vão molhando o pouco que restou de seco nos outros como se nada fosse. Depois o enfiam na bolsa, que deve acabar o dia cheirando a cachorro vira-lata.

Tem também os que, ao menor sinal de chuva, correm. Vi na televisão que você acaba se molhando mais se correr. Essa parte eu não sei porque mal me lembro como se calcula a velocidade média de um carro, mas sei que o risco de escorregar no piso molhado e se estabacar aumenta cerca de 80%. Esse dado, é claro, não é da Unicamp, eu mesma inventei. Se é pra molhar, molha direito, detesto garoinha fina. O ditado “se está na chuva, é pra se molhar” nunca foi tão bem aplicado por mim.

Guarda-chuva ocupa espaço, é feio, espeta o olho dos outros... Desistam. Guarda-chuva só atrapalha. Não há guarda-chuva nem contra o amor, já disseram (acho eu) os Titãs.

Monday, October 01, 2007

Repórter Esso

Abastecer o carro é uma tarefa ingrata. Pode parecer corriqueiro para o resto dos mortais que possui um automóvel, mas não para mim. Com o pequeno esforço do senhor meu pai, o tanque do carro aparecia, quase que milagrosamente, cheio sempre que preciso. Hoje, mesmo pifiamente assalariada, a missão se virou para mim.

A história começa com o ponteiro esplendoroso, em seu apogeu, e eu feliz, achando que a vida é bonita só porque o carro tem combustível. Quase encaro a Ayrton Senna rumo ao Rio de Janeiro pra comemorar. Antes disso, porém, preciso ir ao trabalho, à academia, à pet shop com o cachorro. Preciso ir à maldita Rua Augusta gastar em cerveja o dinheiro que poderia gastar com gasolina.

E o ponteiro vai descendo, aquela alegria toda vai dando lugar a um desconforto, uma coisa esquisita, quase angústia. Vou aproveitando os momentos de tanque cheio como quem adia a tragédia. Só que sei exatamente o que vai acontecer, sempre soube, não dá pra evitar.

E eu insisto. Em ir pro Alto de Pinheiros, pra Avenida Sumaré ver se o trânsito está mais ameno. E não está. E o ponteiro baixa. Só falto tapar o painel com um pano preto para não ver o que está acontecendo.

Da metade do tanque pra baixo, é o Ladeirão do Morumbi na banguela rumo à decepção. A verdade (a inexorável verdade) está cada vez mais próxima e eu finjo que é com o vizinho, que o tanque do meu carro é eterno, imbatível, que ele nasceu pra ser cheio de gasolina aditivada. Os outros é que não entendem, o carro deles é um Uno velho. O meu é um especial, feito sob medida para mim, ainda nem lançaram.

Quando olho para o painel novamente (e quase 20 dias depois), ela chega. A luz indicando falta de combustível acende. Amarela, me mandando prestar atenção. A qualquer momento eu acho que o carro não vai agüentar e que vai parar no meio da avenida. Eu sei que não vai, mas digo a todos que é pra chamar atenção.

No farol mais improvável, enquanto pondero se paro no posto ou me arrisco, a luz apaga. Ouço uma bateria de escola de samba tocando em homenagem ao suposto milagre. Sei que vou voltar a ver a luz acesa dentro de muito pouco, mas vê-la apagando voluntariamente me faz ter a sensação de que ela nunca mais vai acender e que eu nunca mais vou precisar parar no posto na vida. Que o meu carro, de tão especial, é movido aos trancos da suspensão quando passo em buracos ou me esqueço de reduzir na valeta, e não a derivados do petróleo.

Com o dinheiro na carteira, o tempo disponível para encher o tanque, checar o óleo, calibrar os pneus e até para ver o frentista lavar os vidros e passar aquele rodinho hipnotizante, eu encosto em qualquer posto sem bandeira, olho para o funcionário maltrapilho e peço para ele pôr dez da comum.

Amanhã ou depois eu vou ter que pedir o serviço completo e parar com essa mania de achar que o meu carro é especial, que não pára no meio da avenida. Fico vivendo das migalhas, da alegria e da decepção do acende-apaga da luzinha do painel. Parece fácil sacar o cartão de débito e falar “completa pra mim, por favor”. Mas não é. Pelo menos não para o meu carro tão especial que nem existe.

Monday, September 03, 2007

Não é homofobia. Só pode ser feitiçaria

Meu comparsa Rafa escreveu há alguns meses como identificar o homossexual disfarçado. Vou começar usando termos respeitosos como homossexual, mas fiquem tranqüilos que depois piora. Salvo raríssimas exceções me enganei a respeito desses pseudo-héteros. É nisso que se baseia a crise: é tanto gay que não dá mais pra disfarçar!

Me pergunto de onde vêm tantos armários para essa gente toda sair. Samuel Klein deve estar produzindo o triplo de guarda-roupas 6 portas padrão cerejeiro para se adequar à demanda dos cabeleireiros e professores de lambaeróbica das academias do subúrbio. Gastam fortunas na Renner e na L'Acqua di Fiori. Sem contar os reflexos no cabelo, mas isso fica pra outra vez.

É gay que não acaba mais. Não que eu queira que eles acabem, vejam bem. Só acho que poderiam diminuir um pouco a produção. É bom esclarecer que isso não é um apelo desesperado por machos . Suplico ao além por equilíbrio entre as espécies. Já é comprovados que hpa mais mulheres e boa parte dos homens ainda abandona o barco em alto-mar? Não dá. Aposto que se os marinheiros fossem gostosos, eles ficariam.

Antigamente era difícil ver a bicharada andando pelas ruas. Hoje em dia é possível identificar até as mini-bibas nos shoppings, pedindo bonequinhas Polly Pocket para as mães ingênuas ou um pouco mais velhas, andando em bandos de meninas de 13 anos sem apresentar ameaça a nenhuma delas.

A situação está tão insustentável que outro dia indo à casa de um amigo (bicha, é claro. Fui premiada com um sem-fim de amigos bichas), fui surpreendida no estacionamento do supermercado por uma espécie de pedinte. Estranhei. Praça Panamericana, bairro nobre, difícil ter mendigo ali. Eis que era um mezzo-pedinte. Tinha sido roubado e precisava de dinheiro para voltar para casa, era estudante da USP, mostrou a carteirinha de lá.

Viado. Meu deus, como era viado. Passava a mão no cabelinho comprido, falava arrastado em tom de lamúrias, dava voltinhas no próprio eixo e quando achei que nada mais pudesse acontecer, ele desabafou "I'm sorry, gente. Muito obrigada!". Pronto. Bicha mendiga pedinte, não falta mais nada. Ou melhor, falta. Homem. Hetero.

Se não jogam, descaradamente, água pra fora da bacia, outros também não deixam muito claro que gostam de mulher com a veemência necessária. É um tal de ir pra balada gay e de sair "só pra dançar" que eu nunca vi. Homem que é homem não dança, gente. Fica enchendo os pandulhos de whiskey investindo em todas as mulheres tal como um fuzileiro naval.

Não aliviaram a barra nem do meu personagem preferido dos Simpsons. O menininho de oito anos é indefinido. Está tudo de cabeça pra baixo e desmunhecando.

Devem ter feito um ebó pra mim, não é possível. Estou aqui, mais avulsa que o Tom Hanks no Náufrago. Só que a minha bola Wilson é, na verdade, Samantha! Operada... Socorro.

Se meus amigos e leitores gays chegaram até aqui, saibam que eu amo vocês. E o Ralph Wiggum também. Não perco o amigo nem a piada.

Sunday, August 26, 2007

Isso tá me cheirando...

Não sei se é apenas um modismo recente ou se as propagandas de “Bom-Ar” vêm tomando conta dos intervalos na tv (aberta ou fechada). De uma hora pra outra me vi na obrigação de perfumar o ambiente. Como se eu morasse à beira do Rio Pinheiros ou num esgoto a céu aberto. Só que eu não moro.

A começar por aquela miniatura de imbecil que aparece gritando pra mãe que quer fazer cocô. Aquele menino já tem idade pra ler e escrever e ainda tem a impáfia de chamar a mãe pra ir ao banheiro? Francamente! Na casa do infante colega, o tal do Pedrinho, tem Glade no banheiro. Elimina os maus odores.

Ok, fezes (mesmo da Madonna ou do Leonardo DiCaprio) realmente exalam maus odores. Contudo, quem já riscou um fósforo depois das necessidades fisiológicas sabe que é uma solução muitíssimo mais eficaz do que qualquer aparelhinho modernoso instalado ao lado da privada (privada mesmo, nem vem com essa de vaso, vaso é pra planta) cujo timer (sim, um timer!) borrifa o produto de tempo em tempo.

Tem também um outro aparato desodorizante, desta vez para geladeiras. Uma repaginação do “ovo azul” ou do pó de café que se punha (ou melhor, sua avó punha) entre iogurtes e margarinas para tirar os tais dos odores indesejados.

Aqui em casa temos o hábito de enrolar os alimentos em magipack, papel alumínio e de jogar fora o que estiver estragando. Nada de peixes ou camarões comemorando aniversário de 3 meses ao lado de requeijão embolorado ou de folhas de alface murchas. Garanto que basta isso para manter sua geladeira sem aromas indevidos.

E tem outra: não é sempre preciso sentir cheiro de flores do campo, brisa do mar, trigais ensolarados ou strawberry fields forever. Fica essa frescura de incenso, óleo aromatizante… Já cheguei a sair de algumas lojas com a lente de contato irritada e defumada pela fumaça, como se tivesse participado de uma pajelança. Meu Clinique Happy foi reduzido a quase nada perto dos ylang-ylang xamânicos de hare krishnas da Henrique Schaumman.

Quer um conselho? Faça faxina regularmente, deixe o ambiente arejado e peça aos inevitáveis amigos fumantes que acelerem suas mortes no terraço. Melhor do que mascarar a fedentina depois.

Monday, July 30, 2007

O primeiro passo é admitir

Não adianta tentar tapar o Sol com a peneira - ou a sua bunda com uma tanga P. O fato é que você está gorda. Não estou, por enquanto, falando de obesidade mórbida, seis meses ininterruptos no Sete Voltas, redução de estômago nem anfetaminas manipuladas. Contudo, perder sete quilos iam fazer um bem danado.

Pára pra reparar: ao andar pela rua, quantos assovios e/ou buzinadas oriundas de caminhoneiros, taxistas ou motoboys você ouve? Dois? É... ainda faltam uns cinquinho, viu! Não é por nada, mas essa facção da ala masculina tem uma inegável preferência por mulheres, digamos assim, voluptuosas. E se você for como eu, definitivamente não acha a Sheila Carvalho um modelo coerente de corpo bonito.

No trabalho/escola/faculdade: com que freqüência vêm te pedir doces, guloseimas ou até mesmo um x-pernil de porta de estádio? É um bom indício da imagem que as pessoas têm de você. Não precisa parar de comer, mas levar um Nutry de côco pra disfarçar não ia fazer mal - muito pelo contrário.


Quando chega na casa de amigos ou parentes, ao invés de oferecerem um café ou chá a primeira coisa que fazem é trazerem uma vitamina de morango, moqueca de peixe ou mesmo o tutu mineiro de sábado, não deu outra: banha! Outro sintoma é usar desculpas esfarrapadas pra comer em demasia "tenho pressão baixa" ou "qualquer coisinha eu sinto fraqueza, fica tudo preto". Isso não serve pra ninguém do seu tamanho, desculpe.

Se ao terminar a refeição num restaurante você, por um milagre do além, resolver recusar a sobremesa, o garçom dá um sorrisinho com ares de "tá tentando enganar a quem? Eu sei que você tem cacife pra comer 3 petit gateaus por minuto!", não tenha dúvidas de que o seu problema é mesmo sobrepeso. Inclusive, se você começar a usar eufemismos como sobrepeso e adiposidade, pode ter certeza: está gorda.

Agora, se você leu tudo isso, não se enquadrou em nenhum sintoma e acha que na verdade quem é gorda mesmo sou eu, tudo bem. Ou você é magra ou gorda que ainda não percebeu.

Monday, July 23, 2007

Ex-futuros amantes

A vida tem coisas engraçadas. Engraçadas talvez não, mas pelo menos curiosas. Domingo, por exemplo, é o dia internacional do sono e do “eu vou acordar o mais tarde possível”. Não somente pelo fato desse dia ser um pouco morto, mas também pela costumeira balada que aconteceu no dia anterior e na qual você enfiou o pé na jaca; como diria Tony Garrido: “todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite”.

Nota do autor: Quero deixar claro que Tony Garrido não é a menor referência e que o girassol é uma flor muito cafona, além de que “a navalha corta na tua carne sangrador” me dá enjôo.

Voltando ao primeiro dia da semana, é nele, quando você menos espera, que o sono lhe foge feito o Fernandinho Beira-mar olhando as portas de Bangu 1 abertas.

Na segunda-feira, quando você reza pra acordar muito disposto, preparada pelo o universo que quer te provocar, começa a cair uma afetuosa e aconchegante chuva 10 minutos antes de o seu despertador tocar. Relutando com as forças que você não tem, começa a se perguntar como pôde desprezar o sono no dia anterior, e promete a você mesmo que no domingo que vem será diferente.

Paradoxos à parte, afinal não se tratam de antíteses, muito menos de metáforas (as pessoas necessitam desesperadamente de esclarecimentos sobre estilística e as tais figuras de linguagem, construção e pensamento.), são coisas como essa que tornam a vida cheia de pensamentos e lamentações.

Por acaso, sou o único que acha no mínimo um absurdo, a Marcha para Jesus acontecer na Av. Paulista sempre em uma sexta-feira e a parada Gay no domingo do mesmo final de semana? Como já nos contou Glauber Rocha, “Deus e o diabo na terra do sol”, na rua, nachuva, na casa ou na fazenda; ou será isso mais um paradoxo? Quiçá, é apenas a democracia que realmente nos surpreende.

Tão engraçado quanto, se é esse o adjetivo mais pertinente, como eu que sou tão rigoroso quanto à escrita e pontuação posso escrever de forma tão confusa e desconexa? Seria, novamente, mais um paradoxo?

Nessa minha vida que já observou situações curiosas e sem tentar aumentar meu passe por isso, discuti com pessoas de enorme gosto musical o brilho e a emoção de palavras de músicas sertanejas. Se “há uma nuvem de lágrimas sobre meu olhos me dizendo que você foi embora”, “ me ensina a te esquecer” e sua rima prima “jeito de triste de ter você” não são emocionantes, está tudo errado. Agora, elogiar o sertanejo, onde já se viu? Nesse mesmo mundo esquisito cheio de tortuosas desconexões.

Toda essa enrolação, talvez fosse pra eu tardar em dizer que se antes eu te queria e te precisava, agora não sei mais o que tenho ou quero. Se antes eu não podia te ter, e na esmola preciosa que você dava me gozava feito criança satisfeita, penso como é paradoxal, você me querer, mas mesmo assim eu não podendo de ter. E se ficar com você era realmente o que queria, porém diante da mal formada antítese, que já ma tornou e eu talvez não queira, confundo entre linhas esdrúxulas e pretensiosas, meus pensamentos com a realidade. Divago sem sentido se aqueles cervejamente citados escafandristas existirão e se valerá a pena eles descobrirem o que há guardado dentro de mim e, sobretudo, se existe a importância digna de memória a ser escavada.

O que importa, após um parágrafo maçante, é que a pretensão dos meus atos, seja com você ou com mergulhadores antiquados, reflete apenas insegurança; em insatisfação infundada, diante da alegria do prazer obtido. Se realmente sofrem mais aqueles que não sabem o que querem, posso ser um deles. Eu não, eu sei. O que quero não é você, talvez prefira a sua falta, como um conforto torto. Quero menos ainda os outros que tentaram te descobrir e os que chegaram as estar ao seu lado, dentro do meu Rio submerso. Quero mais, poder ter o que tive e o que tenho, mas me satisfazer quando souber que é hora. E ela não foi agora.



*Agradeço ao Chico, o tio da Bebel, à Silvinha, à Manuela e ao Vitor, pois eles sabem como podem ser os futuros amantes.

Saturday, July 21, 2007

sem titulo

Antes de dormir, naqueles pensamentos em shuffle que não fazem o menor sentido, fico me perguntando como eram as coisas antes da formação das galáxias e como as participantes do “No Limite” faziam pra se depilar naqueles momentos em que água limpa era coisa pra classe AAA.

Também gostaria de saber da sua infância, se você colecionava papel de carta ou selinhos. Se jogava bola ou se era perna de pau daqueles que ficavam na “zaga” só pra completar os onze do time na escola.

Se você já teve festa surpresa, como era o nome do seu primeiro cachorro e se você gostava dele. Você tem tia? Por parte de pai ou de mãe? Ela se lembra da primeira palavra que você falou?

Talvez um dia eu pergunte qual o seu cd preferido de todos os tempos e se você tiver alguma decência nesse corpo, dirá que é impossível responder apenas um.

Você bebe whiskey e cantarola Frank Sinatra pelo salão em festa de casamento? Você tem um nome do meio?

Queria ver se a sua letra é feia, se você escreve um S maiúsculo mais bonito do que o meu (o que eu duvido). Se você ronca, se dorme de lado, de bruços e se acorda de mau-humor.

Ainda assim vou continuar querendo saber se você gosta das onion rings com casquinha crocante ou das encharcadas de óleo. Você gosta de onion rings? Ouve rádio no carro? Que carro você tem?

Só pra me certificar: você não tem medo de avião, né? E também não acredita em ET. Pelo amor de deus! Está curioso para o novo Indiana Jones? Qual você prefere? Eu gosto da Ultima Cruzada, com os olhos de macaco na sopa. Se bem que as cenas finais do cálice sagrado também são muito boas para uma criança de 10 anos.

Lê horóscopo todo dia? Acredita em amor eterno ou pelo menos na monogamia? Caiu de queixo quando era pequeno e guarda a cicatriz ate hoje como 60% das pessoas? Eu mesma não penteio o cabelo todo dia, e você?

Dorme de pijama ou com camiseta promocional desbotada? Suas havaianas são brancas ou pretas? Sua família te chama por algum apelido? Você é feliz?

Wednesday, July 18, 2007

Ensaio para a volta anunciada

A fonte secou. Carolina, nosso barco partiu. E agora, Doralice, como é que nós vamos fazer? "Nós", não. Eu. Como é que eu vou fazer sem conseguir escrever uma puta de uma linha do jeito que eu gostaria? Não tô pedindo pra escrever como o Mário Prata nem nada. É um jeito que eu não sei explicar.

Talvez vocês saibam. Eu quero ser engraçada sem ser depreciativa, quero falar um monte de coisas da minha vida sem me expôr, ser original sem ser esquisita. Não estou querendo confete, não, pessoal. Nem é carnaval, não se preocupem. Invariavelmente essa escassez de idéias vai passar. Não sei como vai ser daqui pra frente, não tenho como garantir nada.

Meu encosto foi embora sem nem cumprir aviso prévio, que diria? Não tô reclamando, ele estava longe de ser um funcionário exemplar, mas eu tinha que ter sido avisada, né! Me deixou aqui sem rumo, parada tentando pedir informação em rua deserta.

Tem aquela em que o Ed Vedder fala que mudou de tanto não mudar. Já John e Macca disseram que viver é fácil com os olhos fechados e isso é triste. Mas não era eu, era meu encosto que tapava os olhos, misunderstanding tudo o que eu via. E isso é triste.Tão triste que não queria estar escrevendo aqui, até porque não sou nem estou triste.Acordei meio assim. You got to roll me and call me the tumbling dice.

Monday, June 18, 2007

A Lenda do Curupira

Caçula de outros 2 irmãos homens, nunca pedi um irmãozinho para a minha mãe. Digo então que o Rafa é como se fosse o irmão mais novo que eu não gostaria de ter. Na impossibilidade de pedir especificamente um "Rafa" para a minha mãe (nem Mãe Diná poderia prever o enconto), e contando com a higiene da mesma – ele mesmo diz que mais de 3 filhos caracteriza a falta dela, nós somos isso que somos. Isso que eu não sei classificar.

Sendo o Rafa uma das pessoas mais sensatas de quem já tive noticias, ele entenderá minha falta de vocabulário. Tão sensato que às vezes perde a sensatez de propósito pra não envergonhar os outros reles mortais. Tão sensato que às vezes parece que ele não existe, que é uma lenda como o Saci. Só que ele existe, sim. Tem as duas pernas e não fuma cachimbo.

Li outro dia que o excesso de realismo numa pessoa acaba, involuntariamente, tornando-se pessimismo. A realidade é dura, o Rafa sabe, mas a dele surge mais bonita, elegante e bem-humorada que a dos outros. Obra dele mesmo. Ou do Saci, se eu acreditasse em seres folclóricos.

Não sei se Rafael Comenale vai gostar dessa minha inclusão do Saci no texto, já que nenhum de nos dois tem simpatia por tradições populares como o bumba-meu-boi, a capoeira, o arroz doce de quermesse e a mania de colocar milho verde em tudo. Pra ser sincera, ele vai gostar, sim. Mas só porque ele é a pessoa que mais me entende no mundo inteiro. Se fosse outro, ia achar que eu sou louca.

E ele só me entende tão bem porque me conhece como nenhuma outra pessoa. Tanto que às vezes me da vontade de chorar, bem na frente dele, mesmo sabendo que ele não vai derrubar nem uma lagriminha de compaixão. E eu finjo que entendo esse lado dele que não chora porque ele releva todos os meus lados obscuros sem passar a mão na minha cabeça.

Parte dessa cumplicidade foi trazida pelo tempo, mas a outra só pode ser mesmo obra daquele garotinho perneta. O timing sincronizado, as lembranças, os traumas de criança e, claro, o humor me são inexplicáveis ate hoje. E como já aprendi com o Rafa, tem certas coisas que não precisam de explicação (mas se eu quiser, ele tenta, tem uma paciência de monge comigo).

Ele vive levantando minha bola, falando como eu sou inteligente, mas bom mesmo é ser como ele, que entende as pessoas ao invés de corrigir seu português. Que descobre as entrelinhas dos meus discursos metidos a alguma coisa, que me fez começar a escrever esse blog sem eu nem perceber direito.

Ao contrário do que eu já pensei, nós não somos tão parecidos. Ele não gosta de cachorro, eu não tenho paciência pra ir ao cinema. Ele não liga pra comida e eu me formei cozinheira. Eu não gosto de comprar roupa e ele tem cacife pra participar do Esquadrão da Moda.


Se fossemos irmãos não ia ser tão bom. Eu iria querer cachorro e ele estaria mais preocupado com as rosas do banheiro. Iria brigar comigo quando eu chamasse a Kylie Minogue de desafinada e eu não suportaria viver assim de perto com a falta de apreço que ele tem pelos Rolling Stones.

O Rafa não é a minha metade nem eu a dele. Somos nós mesmos, melhorados um pela presença do outro, como azeite e orégano. Como eu e o Rafa, sentados em qualquer lugar da cidade tendo a conversa mais confusa e desencontrada possível. O nosso timing – Rafael Comenale sabe bem da importância dele – só pode ser explicado por uma pessoa: o Saci.

Monday, June 11, 2007

Hermanos Para siempre

Que me perdoem todos os filhos únicos que nos visitam, mas ter irmãos é maravilhoso. Não adianta primo, amigo próximo, vizinho da mesma idade que vive na sua casa. Tem que ser irmão. Não precisa ser biológico, claro, mas tem que viver junto, sob o mesmo teto, sob as mesmas condições.

Você só aprende a dividir as coisas, de fato, quando passa anos da sua vida dividindo atenção da senhora sua mãe e do senhor seu pai. Quando tem que esperar pra tomar banho porque tem outro fulano usando o chuveiro, quando usa roupa repassada do irmão mais velho ou repassa seu tênis pro irmão mais novo.

Você percebe da maneira mais delicada possível que não é e que não pode ser - o tempo todo – o centro das atenções. E que também não é o alvo de todas as expectativas que os pais colocam em cima dos filhos.

Você só entende o que é cumplicidade de verdade quando se alia com o seu irmão em busca da vitória “contra” os pais, quando vocês os convencem a comprar um cachorro, uma bicicleta nova ou de que não tem problema faltar na escola em plena quarta-feira sem nenhum motivo. Ou quando escondem as fotos antigas com as roupas ridículas e típicas dos anos 80.

Ninguém sabe se defender de verdade se não se acostuma com o fato de que o “inimigo” mora logo ao lado e que pode levar uma voadora pelo simples fato de estar sentado do lado direito do sofá ou porque esta com o controle remoto nas mãos. E também não aprende a perdoar de coração se os socos trocados no meio da tarde não forem pura tradição familiar.

Você aprende a respeitar naturalmente as diferenças entre as pessoas. Não porque sua mãe te disse (um filho único pode fazer isso), mas porque às vezes é obrigado a ouvir Inimigos da HP ou Sepultura e mesmo com vontade de estourar os tímpanos, releva o fato. Porque mesmo gostando de assistir episodios repetidos dos Simpsons, você continua sendo amado.

Ter irmãos (mais novo, mais velho, homem ou mulher) traz uma sutil segurança de que sozinho no mundo você não fica. De que vai ter com quem dividir as alegrias e as desgraças do futuro e ajudar a cuidar dos pais, que invariavelmente envelhecerão e precisarão de cuidados.

Pode ser que a dinâmica de outros irmãos não seja bem esta, mas te faz mais próximo das pessoas. E intimidade, ao contrario do que dizem por ai, não é uma merda.

Thursday, May 31, 2007

Hora de Comprar

Se me deixassem, poderia passar algumas boas horas assistindo ao Shop Time. Depois que o canal ficou disponível para assinantes TVA, meu mundo ficou mais feliz. Masoquismo ou não, a melhor parte é quando as vendedoras vão pra cozinha. Vendedoras, sim, pois experiência com a comida elas parecem ter nenhuma.

Nos tempos áureos de Vivi Romanelli, os câmeras, contra-regras e ela inclusive se fartavam de comer os pratos feitos nos eletrodomésticos vendidos. Vira e mexe Vivi levava bronca do diretor no ponto eletrônico ah, ta bom, diretor, vou parar de por catupiry no sanduíche. Agora dificilmente se vê o povo comendo, as porções estão menores... Mas nem por isso a atração perdeu a graça.

Madrugada de quarta-feira, fiquei assistindo a reprise do programa ao vivo, a atriz Flavia Bonato, ex-integrante de Malhação começava a sessão de ofertas comentando do friozinho gostoso. Ela de regata e sandália dizia que no RJ a temperatura tinha baixado bastante, o suficiente para todo mundo teeeeeer que comprar a chocolateira elétrica.

E não adianta querer fazer na panela porque ela insistia que não fica a mesma coisa. Ou o leite fica frio demais ou aquece demais e você acaba queimando a boca, superperigoso pra quem tem criança pequena. E o leite quando ferve, que sobe e suja todo o fogão? Ah, não dá, gente! Você põe aqui na chocolateira o leite, as gotinhas de chocolate, o creme de leite, o cacau em pó e o açúcar. Ah é, diretor, vou colocar aqui o licor de menta, ligar aqui nesse botãozinho preto e aguardar 20 minutos.

Nesse momento, Flavia virou cerca de meia xícara de licor de menta dentro de meio litro de leite e quando finalmente o chocolate quente ficou pronto, chamou a colega Renata para experimentar a bebida. A coitada disfarçou a engolida dolorosa e comentou pra quem gosta de menta, ta uma delicia.... Delicadamente, largou o copinho atrás da engenhoca aquecedora de leite e voltou pra sessão de secadores de cabelo.

Flavia, não satisfeita, quis fazer waffles (uêifous). Virou metade da tigela com massa crua no aparelho da Fun Kitchen, com formato de coração, hein, gente, olha o que a criancada não vai se divertir comendo isso aqui. Aproveita, dia dos namorados ta ai tambem, faz um desse pro seu amor...”. Enquanto disparava as baboseiras, a massa foi assando, crescendo e transbordando pela máquina. O câmera desavisado enquadrava as mãos de Flavia pressionando o aparelho para tentar reverter a situação. O que era pra ser coração acabou parecendo o boneco Michelin derretido.

O diretor chama para outra delicia: strogonoff de carne no mini grill quadrado. Flavia jogou os pedaços de carne sobre a chapa ainda fria e o telespectador pode ver com detalhes o desespero da moca ao perceber que o filet mignon soltava água e estava mais pálido que um anêmico com pneumonia. Se deixasse a carne exposta ao sol, ela fritaria mais rapidamente, com certeza. Jogou creme de leite, molho de tomate e no final ninguém se atreveu a comer aquele grude.

Flavia ainda quis nos empurrar uma máquina para fazer mini donuts (dãnãts). Sem fritura, sem sujeira, sua família vai adorar. Isso aqui com açúcar, canela e aquele chocolatinho quente ali da chocolateira. Você não precisa de mais nada! Talvez de dinheiro pra pagar, já que essa ultima custava quase 400 reais, o grill mais 250 e a maquina de waffles e de donuts cerca 180 cada, mas isso ela não mencionou.

Não sei se foi o efeito do excesso de licor ou se acordou com o pé virado, mas o fato é que a moça falou tanto, tanto, que esqueceu os mini donuts (dãnãts) assando dentro da maquina, e quando deu por si, as rosquinhas estavam com a maciez de um paralelepípedo e a coloração beirando o preto- piche. Para provar que não tinha feito besteira, Flavia ainda tentou dar uma mordida, ofereceu ao câmera, que desconversou, e encerrou o programa dizendo que eu tiiiiinha que ter aqueles produtos em casa, pra fazer minhas refeições com praticidade e rapidez, assim como ela. Resultados não garantidos.

http://www.shoptime.com.br